
03/01/2023
Em uma minúscula ilhota no meio do rio Negro, no estado do Amazonas, uma equipe de cientistas em duas lanchas examina atentamente o céu. Conhecida como Ilha do Comaru, ela está submersa, como acontece todos os anos em março, e apenas as copas das árvores aparecem acima da superfície.
Um grupo de andorinhas-azuis passa zunindo, cortando o ar pesado e úmido da região e, logo acima das lanchas e da ilha, um bando de pontinhos negros começa a se acumular, como nuvens de aves.
Elas formam então um redemoinho sincronizado. Poucos minutos depois, porém, caem como uma chuva de granizo negro, incrustando as árvores, enquanto o seu som se intensifica e ocupa todo o começo da noite.
Em questão de minutos esse espetáculo termina, deixando o céu novamente imóvel.
A ilha de apenas cinco hectares —quase o tamanho do Estádio do Morumbi— atrai uma quantidade enorme dessas andorinhas de penugem cintilante. Por receber a visita de aproximadamente 250 mil indivíduos de fevereiro a abril, é considerada um dos maiores refúgios da espécie já descobertos.
O papel que esse lugar desempenha na migração do pássaro intriga os cientistas. Comaru pode ser o ponto de partida, suspeitam os pesquisadores, para muitos dos 9,3 milhões de andorinhas-azuis que se encaminham da América do Sul para a América do Norte anualmente.
Mario Cohn-Haft, curador de aves do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), em Manaus, também acredita que a ilha possa ser fundamental para entender o declínio constante da espécie. "É a maior janela que temos para o que as andorinhas-azuis fazem na América do Sul", diz.
Estima-se que a população reprodutora norte-americana dessas aves tenha diminuído 25% desde 1966. Em algumas áreas, a queda foi ainda mais acentuada. Em outras, as aves desapareceram completamente.
Pouco se sabe sobre os desafios que a espécie encontra quando viaja. "Se pudermos rastrear seus movimentos, descobrir o que estão comendo e analisar se foram contaminados por pesticidas e outros poluentes, podemos aprender algo sobre como estão se saindo aqui", afirma.
Cohn-Haft, junto a cientistas americanos e brasileiros, realizou em 2022 o estudo mais abrangente já feito sobre Comaru, em busca de informações que possam ajudar a garantir o futuro da espécie.
Na América do Norte, a área de reprodução da ave se estende do Canadá ao México, mas se concentra principalmente a leste das Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos.
As andorinhas-azuis fazem ninhos exclusivamente em estruturas que os humanos erguem para recebê-los —de cabaças ocas a miniaturas de "condomínios". Os pássaros muitas vezes voltam para o mesmo quintal, e até mesmo para a mesma estrutura, todos os anos, o que facilita a pesquisa com auxílio de dispositivos de rastreamento, que devem ser recuperados junto com as valiosas informações que trazem.
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