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China busca postura independente nas questões ambientais

24/11/2022

A China usou a edição deste ano da COP, a conferência para o clima da ONU (Organização das Nações Unidas), para mostrar que não depende dos Estados Unidos na condução de sua agenda de sustentabilidade, mas sinalizando boa vontade para retomar a cooperação.
Comandada pelo enviado Xie Zhenhua, a delegação chinesa chegou ao Egito sem tratativas formais com os americanos para o tema.
As conversas estavam suspensas desde a visita da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, a Taiwan, em agosto. Na edição do ano passado, em Glasgow, Escócia, houve uma rara declaração conjunta de cooperação com Washington.
Na época, de forma inédita, Pequim destravou o debate em torno das metas de aquecimento definidas na COP26. Enquanto o Acordo de Paris limitava o aquecimento em menos de 2°C acima dos tempos pré-industriais, líderes reunidos em 2021 na cidade escocesa sinalizaram intenção de baixar a meta para 1,5°C.
Na COP27, entretanto, o enviado especial para o clima dos EUA, John Kerry, reclamou da resistência de "alguns países" com o tópico, sem mencionar nomes. Xie Zhenhua disse na segunda (14) que não se opunha.
Embora não tenham realizado reuniões oficiais no Egito, Xie e Kerry foram vistos em conversas informais por pelo menos sete vezes.
Pessoas presentes no evento relataram à Folha que o clima se tornou mais ameno após o encontro de Joe Biden com Xi Jinping às vésperas da cúpula do G20 em Bali, na Indonésia, quando os dois líderes sinalizaram retomada nos diálogos.
Para Taylah Bland, mestre em Estudos Globais na Universidade Tsinghua e pesquisadora residente na Asia Society, a postura da delegação chinesa indica que Pequim estará aberta a cooperar, mas quer sinalizar que não depende dos americanos para implementar a agenda doméstica de sustentabilidade.
A especialista diz acreditar que, com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris promovida por Donald Trump (Biden posteriormente retomou os compromissos), a China viu uma oportunidade de liderar a agenda para o clima.
Entretanto, Bland destaca que a China não vai ser capaz de cumprir sozinha a promessa de se tornar uma nação neutra em carbono até 2060.
O compromisso foi firmado pelo próprio Xi Jinping na Assembleia-Geral da ONU no ano passado, mas especialistas estimam que alcançar o feito demandariam investimentos na ordem de US$14,7 trilhões nos próximos 30 anos.
"A China pode investir tanto dinheiro e conquistar essa meta sozinha? Não acredito que seja capaz. Eles certamente dependerão de financiamento adicional e ajuda de outros países. Contudo, a esta altura, já está bastante claro que não há solução para a questão climática sem eles", analisa a especialista.
Transferir ajuda para os chineses, porém, pode se mostrar um tópico espinhoso. Enquanto Pequim insiste em se enquadrar como uma economia em desenvolvimento, o que prevê menos compromissos com metas globais, cresce o clamor internacional para que contribua financeiramente como um
país desenvolvido.
Em 8 de novembro, o bloco de negociação da Associação dos Pequenos Estados Insulares —formado por países cuja existência está ameaçada pelo aumento da temperatura terrestre— defendeu que China e Índia façam repasses em dinheiro a um fundo de compensação por desastres causados pelo aquecimento global.
Premiê de Antígua e Barbuda e líder do bloco, Gaston Browne disse à imprensa que "todos nós sabemos que eles são grandes poluidores, e poluidores devem pagar". Os chineses reagiram dizendo que apoiavam a ideia de um fundo "mesmo não sendo obrigados", embora não tenham se comprometido a fazer os aportes financeiros.

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