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Ampliar em 2% a área protegida da Mata Atlântica ajudaria a conservar cervídeos ameaçados

17/11/2022

Altamente dependentes das florestas, visados pela caça e vitimados por ataques de cachorros domésticos e doenças do gado, os cervídeos da mata atlântica estão em sua maior parte vulneráveis à extinção. A boa notícia é que conservar 48.400 quilômetros quadrados (km²), ou 2% do total da área do bioma, pode ser suficiente para manter as populações das três espécies brasileiras que vivem nessas matas. Pouco menos de 50% dessas áreas já possuem alguma proteção legal.
A conclusão é de um estudo publicado no Journal for Nature Conservation por pesquisadores brasileiros apoiados pela Fapesp.
"Essas espécies são estritamente florestais e, por isso, sua presença é um importante indicador da qualidade das florestas da mata atlântica. Por isso, ao conservar os cervídeos, estamos protegendo todo o ecossistema", explica Márcio Leite de Oliveira, que realizou o trabalho durante estágio de pós-doutorado no Núcleo de Pesquisa e Conservação de Cervídeos (Nupecce) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal, com bolsa da Fapesp.
O grupo de autores, que inclui pesquisadores das universidades federais da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, e do Paraná (UFPR), concluiu que 56,8% das áreas que deveriam ser prioritárias para preservação não estão dentro de unidades de conservação.
A outra parte está dentro de unidades de conservação mais ou menos restritivas, como reservas biológicas e parques nacionais (20,7%), no primeiro caso, e Áreas de Proteção Ambiental (APAs), no segundo, que totalizam 19,9%. Uma pequena porção (2,6%) está em terras indígenas.
Para chegar a esses valores, os pesquisadores mapearam todas as áreas onde o veado-mateiro (Mazama rufa), o veado-mateiro-pequeno (Mazama jucunda) e o veado-mão-curta (Mazama nana) ocorrem na mata atlântica, seja no Brasil, na Argentina ou no Paraguai.
No mapeamento, foi considerada a presença de florestas e de condições bioclimáticas para a sobrevivência das espécies. Além disso, o grupo considerou a área mínima para a viabilidade de populações de cada espécie (120 km²).
Acrescentou-se no mapa, ainda, uma parte de áreas teoricamente adequadas para os animais, mas que ainda não possuem registros de ocorrência. "Como não se pode ter certeza de que as espécies ocorrem ou não, esses territórios tiveram seu peso reduzido no mapeamento", conta Oliveira.
Os autores constataram ainda que muitas áreas, mesmo dentro de unidades de conservação, sofrem com diversas influências humanas, tais quais presença de caçadores e espécies exóticas como cachorros domésticos (que perseguem e matam os cervídeos), porcos, vacas, carneiros e javalis, que podem transmitir doenças.
Por isso, metade da área proposta como prioritária tem grande influência humana, e a outra parte, menos. Assim, as políticas públicas a serem adotadas para a conservação dessas espécies precisam ser diferentes.
Nas áreas de grande influência humana fora de unidades de conservação, os autores aconselham a criação de áreas protegidas que permitem alguns usos sustentáveis, como as APAs. Nas que sofrem menos ação de pessoas, propõem o estabelecimento de áreas mais restritivas, como parques e reservas.
"Identificamos 21 desses grandes maciços florestais fora de áreas protegidas que podem sustentar populações viáveis de cervídeos e poderiam ser transformados em novas unidades de conservação", aponta Oliveira.
Ainda que o nível de proteção de algumas unidades de conservação seja menor, a existência de uma proteção legal necessariamente tornaria mais rigoroso o processo de licenciamento ambiental para obras, resguardando de alguma forma os cervídeos.
Com o mapeamento, os pesquisadores esperam dar uma base realista, porém efetiva, para gestores e comunidades conservarem esses mamíferos e, por extensão, os ecossistemas.
O trabalho teve ainda apoio da Fapesp por meio de bolsa de doutorado concedida a Pedro Henrique de Faria Peres.

Termine de ler a matéria na Folha de S. Paulo

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