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Brasil pode ser o primeiro a zerar emissões líquidas

17/11/2022

O Brasil pode ser o primeiro país do mundo a zerar emissões líquidas de gases do efeito estufa até 2040. É o que concluem, a partir de dados e análises calculadas, pesquisadores brasileiros na COP27, a Conferência do Clima das Nações Unidas, que ocorre até o dia 18 em Sharm El-Sheikh, no Egito. Segundo os especialistas, a característica do país em ter a maior parte das emissões ligada ao uso da terra, que inclui desmatamento e fogo associado, e às atividades agropecuárias, torna possível neutralizar a liberação dos gases que estão causando o superaquecimento do planeta com “relativa rapidez”.
“Se eliminarmos as emissões por uso da terra, dá uma redução de 77% nas emissões brasileiras em relação a 2005. Se considerarmos a variação de carbono no solo por manejo de pastagem, podemos tirar mais 230 milhões de toneladas que são absorvidas nos solos agrícolas. E se acrescentarmos nessa conta que é possível reduzir 200 milhões de toneladas de metano, nossas emissões praticamente seriam residuais”, explica Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas.
Azevedo prossegue afirmando que quando reduzimos o desmatamento aumenta a regeneração [e, por consequência, a absorção de gases do efeito estufa da atmosfera]. “Podemos mudar esse quadro com relativa rapidez. É muito possível o Brasil ser o primeiro país com emissões líquidas zeradas, em algum momento entre 2030 e 2040”, afirma.
A conclusão foi apresentada no painel “Uso da terra no Brasil: vilão, vítima ou herói da crise climática?”, que iniciou a programação do Brazil Climate Action Hub, espaço da sociedade civil brasileira na conferência do clima, na última segunda-feira (14). A discussão foi moderada por Ana Toni, diretora do iCS (Instituto Clima e Sociedade), com participações também de Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo, e de Michael Coe, diretor do programa Amazônia no Centro de Pesquisa do Clima Woodwell.
Entre os cinco maiores poluidores do mundo, o Brasil emitiu 2,42 bilhões de toneladas brutas de carbono equivalente em 2021. Foi o maior aumento em 19 anos, de 12,2% comparado ao ano anterior. A medida do carbono equivalente representa a soma do efeito superaquecedor de todos os tipos de gases do efeito estufa na atmosfera. As emissões de outros grandes poluidores, como Estados Unidos, China e Rússia, estão mais atreladas à queima de combustíveis fósseis. As emissões brutas são tudo o que é emitido, enquanto que as emissões líquidas consideram os gases de efeito estufa que são removidos da atmosfera pela vegetação.
Toya Manchineri, coordenador da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, ressaltou os impactos negativos do desmatamento para os povos originários, para as florestas e para os animais que nela habitam, e indicou que o momento pede união para proteger a vida no presente e no futuro.
“O desmatamento traz a perda de nossa identidade cultural; traz fome e sede, porque perdemos sementes, e assim, se modifica o plantio e o modo de organização dos povos indígenas; traz a perda de vida do ecossistema da floresta. A floresta é tudo para a gente e deveria ser também para a humanidade. Há muita fonte de vida tanto para o presente quanto para o futuro. Esperamos que todos do planeta Terra compreendam a importância da floresta, utilizando sua inteligência para que possamos juntos preservar os biomas. É um momento para, enquanto seres humanos, olharmos as florestas não como espaço geográfico, mas como espaço onde há vida, cultura e sabedoria. Se continuarmos com essa ganância, vamos destruir tudo o que temos. É o momento de cuidar desta grande aldeia do mundo”, afirmou Manchineri.
Florestas e outros tipos de vegetação nativa como savanas, tundras e áreas alagadas, guardam grandes estoques de carbono tanto acima quanto abaixo do solo. De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), florestas tropicais como a Amazônia podem estocar cerca de 243 toneladas de carbono por hectare. A cada ano, todas as florestas do mundo absorvem em torno de 15,6 bilhões de toneladas de carbono – quantidade equivalente a três vezes as emissões anuais dos Estados Unidos -, mas aproximadamente 8,1 bilhões de toneladas são liberadas de volta para atmosfera por conta do desmatamento, fogo e degradação dessas vegetações.

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