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Santuário de tartarugas-marinhas pode acabar devido às mudanças climáticas

17/11/2022

Antigamente as grandes tartarugas-marinhas verdes tinham muito medo de humanos, dos quais fugiam o mais rápido que conseguiam.
"Quando as tartarugas viam pessoas, era como se tivessem visto um fantasma", comentou Mario Pascobello, morador da Ilha Apo, nas Filipinas. "Antigamente a gente as matava", ele explicou. Os pescadores da ilha consumiam a carne e os ovos das tartarugas.
Hoje as tartarugas-marinhas verdes, uma espécie principalmente herbívora e que corre risco de extinção, vivem tranquilamente nas águas rasas do litoral da ilha, sem ser incomodadas pelos pescadores, que compartilham as águas com elas.
Mas se os pescadores não constituem mais uma ameaça às tartarugas, estas enfrentam outro perigo criado pelo homem: a mudança climática.
"O aumento da temperatura das áreas costeiras, provocada pela mudança climática, vai matar corais e larvas de peixes", disse o biólogo marinho Angel Alcala, que começou a visitar a ilha na década de 1970. "Antes chegavam tufões à área de Negros apenas a cada dez ou 15 anos, mas hoje Apo é atingida por um tufão a cada quatro ou cinco anos."
A comunidade ainda está se recuperando do último tufão, e nos últimos anos teve que restaurar parte de seu recife que foi danificada em eventos de branqueamento, em que a água marinha superaquecida leva o coral a expelir os organismos de tipo vegetal que vivem dentro dele, levando os corais a ficar brancos e colocando-os em risco maior de morrer.
Ilhota vulcânica pequena situada mais ou menos no centro do arquipélago das Filipinas, Apo abriga um santuário marinho intocado numa área conhecida como a Amazônia do Mar devido à sua grande biodiversidade. Acredita-se que as águas em volta da ilhota abriguem 400 espécies de corais.
A harmonia reinante hoje entre as tartarugas e os humanos não foi alcançada facilmente.
A comunidade da ilha é composta principalmente de pescadores. Num primeiro momento, eles se opuseram fortemente à criação do santuário, temendo que os esforços de conservação impusessem restrições que levariam uma área já carente a mergulhar ainda mais fundo na pobreza.
"Me lembro de pensar que nossa ilha poderia ser tirada de nós", contou o pescador idoso Leonardo Tabanera. "E se não pudéssemos mais pescar?"
Mas o santuário marinho criado em 1982 acabou sendo saudado como um exemplo bem-sucedido de como negociações e concessões mútuas são capazes de equilibrar as necessidades de uma população local –que depende da extração de recursos naturais para sua sobrevivência— com metas de conservação globais.
"O que é mais importante: o santuário ou as pessoas que precisam se alimentar?", disse Pascobello, um dos líderes da comunidade. "É preciso muita discussão, muito diálogo."
Instado por sua mãe, contou Pascobello, ele acabou se abrindo à ideia do santuário, mas apenas se a comunidade e os conservacionistas pudessem chegar ao que ele descreveu como "uma situação que beneficia a todos".
Após anos de discussões, chegou-se a uma solução: os pescadores concordaram em criar uma zona de pesca proibida –mas apenas numa área onde eles raramente pescavam de qualquer maneira.
"Desconfio que os pescasores tenham aceito que protegêssemos a parte do recife que não era realmente muito produtiva, do ponto de vista deles", comentuou Alcala.

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