
08/11/2022
Um movimento jovem e urbano, muitas vezes ligado às elites, e profundamente contrário ao modelo capitalista de desenvolvimento econômico, percebido como destruidor dos recursos do planeta. É esse o perfil dos ativistas radicais pelo clima, que recentemente vêm realizando uma série de protestos em grandes museus europeus.
A avaliação é do jornalista francês Marc Lomazzi, especialista no tema e autor do recente livro "Ultra Ecologicus: Les Nouveaux Croisés de l´Écologie" (ultraecológicos: os novos cruzados da ecologia), inteiramente dedicado à análise do ativismo ecológico dos últimos anos.
"Nós estamos em um movimento de ecologia radical", sintetiza.
Com passagens pela rádio France Inter, pelo jornal Le Parisien, entre outras publicações de destaque, Lomazzi decidiu mergulhar no universo dos movimentos ecológicos radicais após testemunhar os impactos de uma manifestação do grupo Extinction Rebellion, que bloqueou a praça Châtelet, em pleno centro de Paris, durante cinco dias em outubro de 2019.
"Eram pessoas que quase ninguém conhecia na França, mas que já haviam feito protestos na Inglaterra, como um bloqueio na ponte de Londres. Então eu fiquei muito surpreso, e quis saber quem era esse novo grupo ecologista. E eu me dei conta de que atrás do Extinction Rebellion, que talvez seja o grupo mais conhecido, havia toda uma série de grupos de ecologistas radicais", explica.
Para Lomazzi, o amplo apoio à causa climática na Europa faz com que a grande parte da opinião pública ainda tenha uma visão simpática aos ambientalistas. Um apoio, no entanto, que estaria bastante condicionado à manutenção do caráter pacífico das manifestações.
Ainda assim, demonstrações mais recentes, como as séries de "ataques" com comidas a obras de arte, além de bloqueios em rodovias e infraestruturas, podem causar efeitos negativos para a imagem desses ativistas.
Em entrevista à Folha, Marc Lomazzi explicou as origens do movimento e falou sobre suas principais implicações.
Como nasceu o movimento ecologista radical? Na França e em muitos países, o movimento ecologista existe há bastante tempo, começou com os naturalistas no século 19. Depois vieram os vários grupos locais de defesa da natureza, que lutavam, por exemplo, contra a caça de aves migratórias.
Em um segundo momento, houve a aparição da ecologia política. Na França, com o surgimento dos Verdes [partido político] nos anos 1990. Eles tinham o objetivo de promover uma política que, de alguma forma, defendesse o meio ambiente.
Quando a esquerda estava no poder, havia também ecologistas no governo. Em seguida, mesmo com a direita, eles também estavam lá. Essa era uma ecologia mais pragmática, que defende caminhar gradualmente para um mundo mais verde, que respeite a natureza e o meio ambiente.
Agora nós estamos numa terceira fase, que é a da urgência climática. Os jovens que nascem nos anos 1990 e 2000 já cresceram com essa ideia de que o aquecimento global e a crise climática estão nos levando para uma catástrofe.
Isso é algo novo, porque é só a partir dessa geração conhecemos a real dimensão do problema ambiental. Para eles, os ecologistas no governo e a ideia transição ecológica não são suficientemente rápidos diante do que é a urgência climática. Então esses jovens querem medidas radicais de mudança, sobretudo econômicas, de modo a parar a emissão de gases de efeito estufa.
Qual é o perfil dos ativistas climáticos mais radicais? Na França, como em boa parte da Europa, é um movimento muito ligado aos jovens e aos estudantes que vivem nas grandes cidades, muito mais do que no campo. A maioria tem ensino universitário, muitos tendo passado pelas "grandes escolas" [faculdades de elite francesa].
Essa geração que faz parte das atuais e das futuras elites da nação está muito ligada ao movimento ecologista. A fraqueza desse tipo de movimento ecologista, efetivamente, é o fato de que não há ativismo popular. Ele quase não existe nos bairros populares. É um movimento, como em 1968 na França, que tem jovens e estudantes mais elitizados.
Termine de ler a entrevista na Folha de S. Paulo
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