
08/11/2022
Purê de batata em quadro de Monet, sopa de tomate em tela de Van Gogh e torta na cara de estátua de cera do rei Charles 3º. Ativistas contra as mudanças climáticas fizeram uma série de protestos em museus europeus nas últimas semanas e se preparam para intensificar a agenda de manifestações no contexto da COP27 (conferência do clima da ONU), que acontece no Egito dos dias 6 a 18 deste mês.
Diversos grupos decidiram subir o tom das ações públicas por considerarem que os líderes mundiais têm sido pouco eficazes em relação à emergência climática.
Além das ações em museus, os ambientalistas também têm realizado uma série de atos de desobediência civil em cidades da Europa, sobretudo na Alemanha e no Reino Unido, atualmente o epicentro de atuação de grupos mais radicais.
Os britânicos do Just Stop Oil (simplesmente pare o petróleo, em tradução livre) têm sido os mais ativos, com ações registradas em todos os dias de outubro.
Responsáveis pelos protestos nos museus, esses ativistas também interromperam o trânsito em diversas ruas de Londres, incluindo a icônica Abbey Road, e jogaram tinta laranja na fachada de concessionárias de carros e de lobistas de combustíveis fósseis.
Na Alemanha, a atuação da Scientist Rebellion (rebelião dos cientistas) tem tido grande destaque.
Formado por cientistas que querem chamar a atenção para a crise climática e exigir compromissos reais dos governantes, o grupo realizou uma série de ações de impacto midiático, com destaque para um "acampamento" de ativistas, incluindo pessoas com as mãos coladas no chão, no centro de exibições da Porsche, que pertence à Volkswagen.
"O clima está tão conectado com todo o resto que acaba por ser, de fato, a crise das nossas vidas. Se não há alimento, o custo de vida das pessoas vai aumentar. Se há mais doenças por causa da crise ecológica, também vai impactar a saúde. Tudo isso, por sua vez, pode criar problemas sociais, de segurança e de política", diz ativista portuguesa Teresa Santos, 30, que faz parte do braço da Scientist Rebellion em Portugal.
A jovem participou de protestos na Alemanha e foi detida três vezes por sua atuação nos atos pacíficos de desobediência civil, que incluíram acionar o alarme de incêndio durante o World Health Summit, em Berlim. Os ativistas interromperam um momento de discussão política, e não científica, durante o encontro.
Doutoranda em biologia e atenta à vasta produção científica que atesta a gravidade do aquecimento global, ela avalia que os protestos e os atos de desobediência civil têm sido de grande importância para colocar a questão na agenda midiática internacional.
"As pessoas que têm feito as ações nos museus tomaram sempre o cuidado de não danificar as obras de arte [todos os quadros atingidos tinham proteção de vidro]. Mas são ações muito visuais, e a verdade é que isso põe esses temas nas notícias, que é algo que nós temos muita dificuldade em fazer", afirma.
"Eu tenho a certeza de que ninguém quer danificar obras de arte, tal como eu não queria, de todo, estar fazendo o que eu estive. Ser detida três vezes foi um processo absolutamente aterrorizador. Ninguém estava contente por estar lá, mas é mesmo aquela sensação de que, se não fizermos isso, ninguém vai ligar", completa.
Também membro da Scientist Rebellion, que já está presente em 30 países, o cientista português João Carvalho, 32, destaca que o grupo também tem reivindicações concretas para as autoridades, como a exigência de que o governo alemão pressionasse o FMI (Fundo Monetário Internacional) a perdoar a dívida dos países do Sul econômico.
"Essa dívida enorme impede que os países desenvolvam as suas economias de maneira mais sustentável, porque é mais barato investir em tecnologias fósseis poluentes do que em fontes de energias mais limpas. A Alemanha teve sua dívida perdoada após a Segunda Guerra Mundial e, portanto, seria de bom tom perdoar as de outros países", explica.
A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo
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