
03/11/2022
O tatu-canastra (Priodontes maximus) é o maior tatu do mundo. A espécie, presente na América do Sul pode chegar a 1,5 metro de comprimento e pesar mais de 50 quilos – e mesmo assim é capaz de ficar em pé sobre as suas patas traseiras. Mas, infelizmente, estes animais fascientes estão na lista das espécies vulneráveis da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), com declínio populacional de 30% e, quase três décadas.
A ação do homem no Cerrado, habitat natural do tatu-canastra, está interferindo nas fontes de alimentação da espécie, baseada em cupins e formigas. Com isso, muitos tatus estão buscando alimento nas colmeias de abelhas dos produtores de mel da região.
Como as caixas de mel estão próximas às áreas naturais, onde estão as flores para as abelhas, o tatu-canastra usa seu olfato apurado para encontrá-las e a sua capacidade de ficar em pé para acessá-las com certa facilidade. Os apicultores acabaram descobrindo que muitas vezes as caixas foram instaladas próximas às tocas dos tatus-canastra – uma espécie de hábito noturno. Isso não seria um problema se o ecossistema estivesse preservado, mas com a falta de alimentos, os tatus buscam novas fontes de comida.
“Ao contrário do que muitos imaginavam, o tatu não consome o mel, mas sim as larvas das abelhas. De qualquer forma, ele derruba as caixas para comê-las, o que resulta em prejuízos para os apicultores”, revela Arnaud Desbiez, pesquisador e coordenador do Programa de Conservação do Tatu-canastra. Outros animais também são atraídos para o local em consequência da ação do canastra, como a irara (Eira barbara), o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), o mutum-de-penacho (Crax fasciolata) e a seriema (Cariama cristata).
Para evitar que os animais sejam mortos para preservar as colmeias, Arnaud, a pesquisadora Bruna Oliveira e a jornalista Liana John escreveram o O Guia de Convivência entre Apicultores e Tatus-Canastra no Cerrado do Mato Grosso do Sul, resultado de um trabalho realizado por profissionais que buscaram estratégias para conciliar a conservação dessa espécie ameaçada de extinção com a produtividade dos apicultores com soluções para um potencial conflito no Cerrado do Mato Grosso do Sul.
Inofensivo ao homem e maduro sexualmente apenas aos sete anos de idade, o animal pode gerar apenas um filhote a cada três anos. Ou seja, a morte de um único indivíduo do tatu-canastra significa uma perda enorme para o ecossistema local.
Com a colaboração de 10 associações apícolas, o projeto reuniu informações de 178 apicultores e identificou que 73% deles relataram danos às colmeias por tatu-canastra nos últimos cinco anos e que, em 2019, 46% dos entrevistados tiveram perdas econômicas substanciais com esses episódios.
Como forma de conciliar a produtividade dos apicultores com a conservação da espécie, os pesquisadores elaboraram 10 estratégias para que os apicultores mantenham as caixas próximas à vegetação nativa, mas sem colocar a sua produtividade em risco. Entre as medidas estão: colocar as caixas a 1,30 m do chão, dessa forma elas ficam inacessíveis aos tatus; e usar cerca de alambrado com muro de concreto na base.
Na publicação, estão pontuadas as medidas mais eficazes para as espécies que também se aproveitam da ação do tatu-canastra. Os pesquisadores ainda incluíram medidas que não apresentam eficácia, com as devidas justificativas, como forma de evitar investimentos (de tempo e financeiros). O material traz todas as estratégias ilustradas pelo artista Ronald Rosa.
Fonte: Ciclo Vivo
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