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Niterói será a primeira cidade do Sudeste 100% coberta por método de combate à dengue conduzido pela Fiocruz

20/10/2022

Até o fim do ano, Niterói será a primeira cidade do Sudeste 100% coberta pelo método Wolbachia, iniciativa da World Mosquito Program conduzida no Brasil pela Fiocruz, que usa mosquitos infectados por uma bactéria que impede a transmissão de dengue, chicungunha e zika pelo mosquito do Aedes aegypti . O programa que começou em 2015 em Jurujuba já imprime resultados positivos no município. Enquanto no estado há uma tendência de aumento nos casos de dengue, o número em 2022 até agora já é 358% maior em relação aos infectados em todo o ano passado, Niterói apresenta o segundo menor índice de registros da doença nos últimos seis anos, com 66 casos até o momento.
— Niterói sempre focou em programas como médico de família, controle de zoonoses e saúde ambiental, com prioridade para o combate de arboviroses — diz o secretário de Saúde de Niterói, Rodrigo Oliveira — A tecnologia do Wolbachia contribui para o controle da doença, com resultados positivos.
Hoje, o método já está presente em 33 bairros, o que corresponde a 75% do município. No primeiro ano em que o método foi implementado, os casos diminuíram de 3.369 para 905. No ano seguinte, em 2018, os casos voltaram a subir, com 1.754 registros. Nos anos seguintes, os números seguiram em queda, com apenas 46 casos notificados em 2021.
— A dengue no Rio é endêmica e o mosquito não tem comprovante de residência. Existe uma margem de erro. O importante é sempre analisar se a subida foi maior ou menor em relação ao resto do estado — explica Oliveira.
De acordo com números do World Mosquito Program (WMP), houve redução de cerca de 70% dos casos de dengue, 60% de chikungunya e 40% de Zika nas áreas onde houve a intervenção entomológica.
Os novos bairros que passam a fazer parte do projeto são: Ilha da Conceição, Barreto, Tenente Jardim, Viçoso Jardim, Baldeador, Santa Bárbara, Caramujo, Ititioca, Sapê, Maria Paula, Matapaca, Largo da Batalha, Badu, Vila Progresso, Maceió, Cantagalo, Muriqui, Rio do Ouro e Várzea das Moças. Um trabalho de conscientização com a população destas regiões já está sendo feito e, em novembro, os mosquitos com as características especiais serão soltos por lá.
— É um método ecologicamente mais correto do que outras estratégias como o fumacê, por exemplo. Você não elimina a espécie, você substitui por uma que não transmite o vírus e mantém o equilíbrio ambiental — destaca Oliveira. — Não é só soltar o mosquito. Tem um trabalho de acompanhamento, de visitas domiciliares.
Os mosquitos usados para a imunização são produzidos na Fiocruz, numa biofábrica com capacidade para cerca de dez milhões de ovos por semana. Os insetos de lá, inclusive, abastecem outras duas das quatro cidades contempladas pelo projeto, Mato Grosso e Petrolina. Apenas Belo Horizonte tem sua própria produção.
— São mosquitos que receberam a bactéria wolbachia, presente em 60% dos insetos na natureza, mas não estava no Aedes aegypti. Uma vez infectados, os mosquitos deixam de transmitir alguns vírus, entre eles o da dengue, zika, chikungunya — diz o pesquisador da Fiocruz e líder do WMP Brasil, Luciano Moreira, explicando que a reprodução acontece entre mosquitos já infectados, ressaltando que é um método totalmente seguro e usado por 11 países.
— A mudança que aconteceu foi em 2008, na Austrália, onde o projeto nasceu, quando a bactéria foi tirada do ovo da drosófila e colocada no ovo do Aedes. Quando o mosquito morre, a bactéria também morre, não há risco de contaminação.
Outra característica do projeto é que ele é autossustentável, uma vez que os mosquitos ampliam a cobertura dos locais à medida em que vão se reproduzindo. Em Jurujuba, por exemplo, houve a liberação de mosquitos por quatro meses há sete anos. Atualmente, cerca de 90% dos insetos apresentam a condição especial.
Vale ressaltar que o método é uma ação complementar de combate a doença e não exclui as outras formas de prevenção, como evitar água parada para evitar criadouros do Aedes aegypti
— As pessoas precisam continuar a fazer o seu dever de casa e o poder público precisa seguir com a sua rotina de controle de vetor — reforça Luciano.
Com resultados positivos em Niterói, o método Wolbachia, iniciativa da World Mosquito Program conduzida no Brasil pela Fiocruz, chegou a ser implementado no Rio por um período. Entre 2014 e 2019, os bairros da Ilha do Governador, Penha, Bonsucesso e complexos do Alemão e da Maré receberam mosquitos infectados com a bactéria que impede a transmissão de doenças como dengue, chikungunya e zika, atendendo a 890 mil habitantes nessas regiões. A cobertura da cidade, porém, é um desafio maior.
— Não conseguir entrar em alguns territórios por causa de violência também é um outro desafio — afirma Luciano Moreira, pesquisador da Fiocruz e líder do WMP Brasil — Devido às condições climáticas, geográficas e socioeconômicas não temos como mensurar ao certo a população de mosquitos que precisamos para determinados lugares.
Ainda assim, num estudo conduzido por pesquisadores de Cambridge e publicado na revista científica "The Lancet — Infectious Diseases", mesmo "os níveis intermediários de Wolbachia já podem reduzir a incidência de dengue e chikungunya". De acordo com o estudo para locais em que a prevalência da bactéria foi superior a 60%, a proteção foi de 76%.

Fonte: O Globo

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