
18/10/2022
Dois anos atrás, o canteiro de dois mil metros quadrados na Rua Quintanilha, na Cidade de Deus, era o retrato da desordem urbana. Cercado de lixo, o local onde funcionava um desmanche de carros dividia espaço com uma cracolândia em formação. Hoje, o terreno abriga uma das 56 Hortas Cariocas, programa criado pela Secretaria municipal de Meio Ambiente do Rio que há 16 anos trabalha no combate à insegurança alimentar junto à população vulnerável, atendendo a cerca de 60 mil famílias na cidade.
O cardápio de vantagens vai além. O programa também promove a inclusão social dos moradores da região.
— Depois que fui assaltado na esquina da rua onde moro há 50 anos, vi que algo tinha que ser feito. Chamamos a prefeitura, demarcamos a área e começamos a falar com as pessoas que estavam ali — diz Jairo Ferreira, o Magoo, morador e voluntário.
No local, que está irreconhecível, pequenas podas são feitas com o que há de melhor no dia. Um vasto menu de hortaliças, raízes e legumes abastece, atualmente, cerca de 800 famílias do entorno, e inclui itens como abóbora, batata-doce, milho, alfaces lisa e crespa, taioba, manjericão, coentro e quiabo.
— Quando o projeto começou, a proposta era plantar, colher, doar e vender metade do que era produzido. Aprendemos que o importante não era vender, e sim doar — lembrou Sérgio Salomão, presidente da Associação de Moradores da Cidade de Deus.
Para render frutos, o processo de escolha dos hortelãos também incluiu a população.
— Na associação de moradores, tenho um banco de currículos com pessoas que saíram do cárcere. A primeira lista que eu peguei foi essa. De início, avaliei sete pessoas. Os escolhidos viraram referência na comunidade — conta Salomão.
Paulo André, o Paulinho, de 24 anos, é um desses nomes. Passou um ano preso por roubo e foi liberado por bom comportamento. Durante a semana, das 8h às 16h, ele planta, capina, colhe e atende as pessoas.
— Mudou a minha vida. Eu descarrego tudo na horta, dou meu máximo. Ajudo o morador e a mim mesmo. Passei a viver a minha vida de cabeça erguida — diz.
Dos 56 pontos atendidos pelo Hortas Cariocas, 29 são em comunidades (sendo 9 somente na Cidade de Deus) e 27 em escolas. A primeira delas foi implementada em 2014, na creche Nise da Silveira. Lá, a retirada é feita todo dia e muitas vezes o que é tirado da terra vira merenda escolar.
Na horta da Rua Quintanilha, as doações são feitas a todos os interessados. É só passar e pedir. Alguns moradores, porém, já fazem parte da clientela fixa.
— Tudo mudou com a chegada da horta. Só não pega quem não quer. Eu amo alface, coentro e pimenta. Eu como crua mesmo. Sou mãe de seis e tenho dois netos. Pego quase tudo aqui — relata Liliane Calixto, de 40 anos.
Thuany Dias Leite, de 30 anos, é outra cliente da horta.
— Eles colhem na hora para a gente, sem agrotóxico nenhum. É muito bom. Muita gente não tem condição nem de dar R$ 1 no sacolão, então passa aqui e pega.
— Mais do que alimentos, a horta devolve saúde às pessoas que estão em contato com a natureza, botando a mão na terra. Isso não tem preço — relata Cláudia, que hoje é agente integradora do projeto: — Usamos muito ora-pró-nobis, vegetal conhecido como o contrafilé do pobre, que ajuda no combate a doenças. E eles comem porque apresentamos a eles.
Em 2020, o programa Hortas Cariocas entrou para a lista de ações classificadas como essenciais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) da Organização das Nações Unidas (ONU). A partir deste reconhecimento, a iniciativa passou a integrar a agenda da instituição, que incentiva programas de desenvolvimento sustentável mundo afora. E n
Fonte: O Globo
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