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Cidade australiana vive seus últimos dias depois de amianto matar 10% da população

18/10/2022

Sentado num telhado em uma cidade fantasma no meio do outback australiano, Mario Hartmann estava esperando as escavadeiras. Ele subia diariamente porque só ali havia sinal de internet. Com a cidade mais próxima a uma hora e meia de distância, sabia que tinha de ser cuidadoso. "Você só pode tomar 15 cervejas. Com mais de 15, não consegue subir aqui."
Mas riscos muito piores assombram a cidade. No quintal abaixo, o cão pastor australiano de Hartmann corria atrás de uma bola, levantando nuvens de poeira que continham uma ameaça invisível: o amianto azul. Apenas uma inalação pode levar as fibras para os pulmões, desencadeando um câncer agressivo e incurável. É por isso que o governo está prestes a acabar com a cidade, chamada Wittenoom.
Hartmann, de 59 anos, não deu atenção a isso. Olhou para os campos castigados pelo sol e as cadeias de montanhas vermelhas além da cidade, onde fica sua casa de férias, e comentou: "Como é bonito isso, hein?"
Wittenoom, que já foi um símbolo de prosperidade econômica, é hoje uma das maiores tragédias industriais da Austrália, tornada inabitável pelas ações irresponsáveis de mineradoras e negligenciada por um governo que não fez nada para limpá-la.
A cidade foi construída há muito tempo sob a crescente demanda por produtos de amianto, como revestimentos e isolamento, com a promessa de desenvolvimento econômico ofuscando novas preocupações com a saúde. Das 20 mil pessoas que viveram na cidade ou trabalharam na mina próxima, 2.000 morreram de doenças relacionadas ao amianto.
Wittenoom se tornou uma bomba-relógio cancerígena quando os resíduos de mineração conhecidos como rejeitos foram trazidos para a cidade para ser usados na pavimentação das ruas e em playgrounds e jardins para conter a poeira. Perto da mina, os rejeitos —mais de três milhões de toneladas— foram empilhados como montanhas, escorrendo pelos desfiladeiros.
Sessenta anos depois do fim da mineração, o governo do estado da Austrália Ocidental anuncia que o risco à saúde permanece inaceitavelmente alto.
Durante mais de uma década, houve tentativas de fechar Wittenoom para impedir a visita de turistas em busca de emoção. A cidade foi removida dos mapas oficiais e a água e a eletricidade foram desligadas. O governo tentou retirar os residentes indenizando-os. Quando isso falhou, aprovou um projeto de lei este ano para adquirir os demais imóveis à força.
No processo, o grupo de residentes que se recusava a sair se transformou em símbolo de autodeterminação obstinada, lutando pelo direito de apostar a própria vida.
Mas, no início de setembro, as duas pessoas que ficaram estavam quase prontas a desistir da luta. Uma delas era Hartmann, que aceitou vender sua propriedade há alguns anos, mas ainda retornava todos os anos durante alguns meses.
Maitland Parker, que cresceu nos arredores de Wittenoom durante seu auge, lembra-se de nuvens de poeira subindo de uma mina em atividade e de crianças indígenas como ele pegando carona na boleia dos caminhões que transportavam fibras de amianto. Seu irmão contou que mastigava os rejeitos como chiclete. Mas as pessoas só perceberam o que estavam respirando depois de décadas. "A gente não fazia ideia, realmente", disse Parker.
Quando visitou Wittenoom em uma tarde de agosto, usou máscara. Hartmann fez troça: "Por que a máscara, hein?" Parker já foi diagnosticado com mesotelioma, câncer causado pela exposição ao amianto. Isso é parte da devastação de Wittenoom. Embora muita gente que trabalhou diretamente com o amianto não tenha sofrido de câncer, ele desenvolveu a doença, mesmo nunca tendo vivido na cidade nem trabalhado na mina.
O mesotelioma pode ser tratado, mas não curado, e a expectativa de vida depois do diagnóstico é normalmente de um a dois anos. Mas Parker, de 69 anos, continua forte depois de ter recebido seu diagnóstico em 2016. "Ainda estou vivo. Deveria estar morto." Com o tempo que lhe sobra, assumiu a missão de descontaminar a cidade.

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