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"Black carbon": concentração de fuligem na atmosfera tem relação com o uso do solo na Amazônia

06/10/2022

No último dia 9 de setembro, a cidade de São Paulo amanheceu com o cheiro da fumaça da Amazônia. Não foi a primeira vez. No dia 19 de agosto de 2019 ocorreu um fenômeno semelhante. Eram quatro horas da tarde na capital de São Paulo quando nuvens escuras cobriram o céu completamente. A fumaça também vinha da floresta amazônica, onde os índices de focos de incêndio batiam recordes nunca superados desde que o governo federal fez os primeiros registros, em 1998. O raro fenômeno ocorrido há três anos foi provocado pelo encontro do nevoeiro com as massas de ar vindas do Sul.
O professor Henrique de Melo Jorge Barbosa, do Instituto de Física (IF) da USP, foi quem demonstrou que, em 2019, as partículas suspensas no ar após as queimadas foram transportadas para São Paulo em artigo publicado em março de 2021. Agora, três anos depois, o artigo Relationship between Land Use and Spatial Variability of Atmospheric Brown Carbon and Black Carbon Aerosols in Amazonia, publicado na revista Atmosphere e que conta com a colaboração de Barbosa, encontrou uma relação entre a presença da fuligem responsável por contribuir com as mudanças climáticas e o tipo de uso da terra na Amazônia.
A primeira autoria é dividida pelos pesquisadores do IF Fernando Gonçalves Morais e Marco Aurélio de Menezes Franco, pós-doutorando. O trabalho foi fruto de uma parceria internacional na qual colaboram ao todo dez cientistas, sob a coordenação do professor Paulo Artaxo, do IF. Inicialmente, o estudo tinha o interesse em avaliar propriedades óticas da fuligem suspensa no ar na Amazônia, os aerossóis carbonáceos.
As partículas foram obtidas no trabalho de doutorado de Fernando Morais junto ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), sob a orientação do professor Eduardo Landulfo. Ao cruzar os dados da análise desses aerossóis com mapas sobre o uso do solo, a equipe teve uma surpresa: quanto mais devastada está a floresta, maior é a presença de black carbon, que pode ser entendido como a fuligem proveniente de queimadas e que está relacionada com as mudanças climáticas.
O black carbon (BC) e o brown carbon (BrC) são partículas de aerossóis formadas majoritariamente por carbono que são liberadas após a queima de biomassa. O black carbon, em particular, absorve radiação solar mais próxima do infravermelho, o que resulta em aquecimento do ambiente.
As regiões com maior cobertura florestal, por sua vez, possuem maior porcentagem relativa de brown carbon na atmosfera. Esse componente absorve e espalha radiação solar com maior eficiência na região do ultravioleta, onde o forte componente de espalhamento deste tipo de partícula pode estar relacionado a uma possível contribuição para o resfriamento do planeta.
Além de responsável pela maior absorção de calor, o black carbon presente nas áreas desmatadas pode alterar o regime das chuvas da região e prolongar a estação de seca. A umidade da Amazônia é transportada do Norte para o Sul do Brasil. Dessa forma, a alta concentração de aerossóis provenientes das queimadas tende a reduzir a formação de nuvens. Isso impacta diretamente no transporte de umidade para as regiões Sul e Sudeste do País. Segundo os pesquisadores, esta influência pode se estender, inclusive, até o Sul do Uruguai.
A agricultura e a pecuária são os setores da economia mais afetados por esse fenômeno.
“A agropecuária não é, em si, um problema”, ressalta Marco Aurélio Franco ao Jornal da USP. Segundo ele, o problema estaria em “uma monocultura extensiva que pode desgastar o solo e que além de tudo produz queimadas como forma de manutenção da produção”.
De acordo com o físico, a agricultura precisa ser sustentável, de forma a balancear a existência das culturas e a manutenção de florestas, mantendo especialmente as áreas de proteção ambiental. “A população em geral é quem vai sofrer, por exemplo, com a redução da precipitação nas cidades e o aumento da temperatura. Isso tem acontecido bastante na região Sudeste, até mesmo com os haboobs, as tempestades de poeira que foram observadas em 2020 e 2021 no interior paulista e mineiro”, acrescenta.

A matéria completa pode ser lida em Um Só Planeta

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