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Decomposição de madeira por cupins tende a aumentar com o aquecimento global

04/10/2022

Estudo internacional publicado na revista Science revelou que cupins desempenham um papel essencial na reciclagem da madeira em ecossistemas naturais. Sem a sua existência, vários biomas no mundo teriam acumulado uma grande pilha de matéria orgânica morta. Esses insetos são os responsáveis pela decomposição da madeira, especialmente em locais quentes e com pouca umidade, em que microrganismos, principais decompositores, são pouco abundantes em épocas da seca.
A pesquisa, liderada pela bióloga Amy Zanne, da Universidade de Miami (Estados Unidos), é resultado de uma colaboração entre cem pesquisadores de diversas instituições ao redor do mundo, entre elas a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Durante a investigação, os participantes aplicaram o mesmo método experimental em 130 locais distribuídos nos seis continentes, buscando estudar o comportamento de cupins em variadas condições de temperatura e umidade.
Na Unicamp, ela contou com a participação de André Mouro D’Angioli, na época doutorando no Instituto de Biologia (IB) sob a orientação do docente Rafael Oliveira. O grupo brasileiro recebeu financiamento da Fapesp por meio do Projeto Temático "Restaurando ecossistemas neotropicais secos - seria a composição funcional das plantas a chave para o sucesso?".
De acordo com D’Angioli, a intenção dessa parceria internacional foi verificar em quais regiões do planeta e em que condições climáticas havia uma maior influência de cupins —em comparação com bactérias e fungos— na decomposição da madeira morta, e como esses bichos são afetados por alterações na temperatura e precipitação.
"Esse é um dado relevante, porque a madeira é um importante componente de estocagem de carbono. Então, quanto mais rápido ela se decompõe, mais rápido perdemos o carbono que está armazenado na matéria orgânica e mais rápido ele é enviado como gás carbônico para a atmosfera", esclarece.
Os resultados apontam que, caso as previsões sobre mudanças climáticas se confirmem, as áreas onde o clima é mais quente e seco —como as formações campestres e savânicas do cerrado— irão se expandir. Como consequência, os ambientes em que cupins são importantes decompositores se ampliarão, gerando um cenário de retroalimentação em que o aumento da emissão de gás carbônico causará a elevação das temperaturas globais. Estas, por sua vez, ampliarão o espaço de atuação dos cupins, que liberarão mais gás carbônico conforme decompõem o material orgânico morto.
"Em termos práticos, estamos entendendo como funciona o sistema terrestre e a interface entre um componente biótico, que são os cupins, a vegetação e um componente abiótico, que é o clima", explica Oliveira.
"A gente precisa entender como esses elementos ciclam na Terra, especialmente o carbono, porque assim poderemos predizer o que acontecerá com diferentes ecossistemas, caso o clima se torne mais quente e mais seco", complementa.
O grande diferencial da pesquisa foi a possibilidade de investigar a atuação dos cupins em uma ampla variedade de regiões, com diferentes níveis de temperatura e umidade, garantindo, assim, resultados mais robustos. Como existe uma extensa distribuição biogeográfica de espécies de cupim em todo o mundo, focar o estudo em apenas um ambiente traria resultados bem menos eficientes sobre a atuação deles na decomposição de materiais orgânicos como a madeira.
Essa cooperação em larga escala, revela a bióloga Amy Zanne, permitiu obter mais evidências sobre como o carbono circula pelo planeta. "Além disso, como nosso protocolo era simples e de fácil aplicação, puderam se juntar ao projeto desde alunos de pós-graduação até professores seniores. Isso nos permitiu ter uma rede de pessoas e aprender muito uns com os outros."
O modelo de experimento conduzido pelos cem colaboradores consistiu em inserir blocos de madeira de um tipo de pinus nos seus respectivos ecossistemas. Uma parcela dos blocos foi envolvida com uma rede de proteção para evitar que os cupins os comessem, enquanto outra parte ficou livre para a atuação desses insetos (as malhas foram perfuradas na área que ficou em contato com o solo, permitindo a entrada de cupins por túneis subterrâneos, mas evitando a entrada de outros insetos). Dessa forma, foi possível comparar a decomposição realizada pelos cupins daquela feita por microrganismos como bactérias e fungos, verificando quem possuía uma atuação mais relevante.

Leia a reportagem na íntegra na Folha de S. Paulo

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