
27/09/2022
Ao Maranhão não basta frear o desmatamento, é urgente reverter a situação de áreas já devastadas para garantir a sobrevivência da porção da floresta amazônica do seu território. O estado — um dos nove que integram a Amazônia Legal — já perdeu 76% da floresta original, segundo pesquisadores.
Pouco mais de um terço do Maranhão — onde estão 181 municípios — faz parte do bioma amazônico. A pequena parcela de floresta que restou está próxima a áreas de conservação ambiental e terras indígenas, que vivem sob pressão de madeireiros ilegais, grileiros e agropecuaristas interessados na área ou em seus recursos naturais.
Na região mais devastada da floresta brasileira, há mais de 50 espécies ameaçadas de extinção. Junto com a destruição ambiental, o Maranhão enfrenta históricos e violentos conflitos pela terra.
Foi o segundo estado brasileiro com mais assassinatos no campo no ano passado, segundo relatório da Comissão Pastoral da Terra. Em 2021, 9 dos 35 assassinatos do tipo no Brasil ocorreram em solo maranhense. Comunidades quilombolas e indígenas, que têm papel importante na proteção ambiental, costumam ser os principais alvos.
"Os conflitos fundiários estão diretamente relacionados com ações de destruição dos biomas. Isso tem um custo social e ambiental muito caro ao Maranhão", afirma Diogo Cabral, advogado e pesquisador da Universidade Estadual do Maranhão.
O estado está entre os quatro do Brasil que mais desmataram entre 2019 e 2021, segundo o Relatório Anual de Desmatamento do Brasil, do Mapbiomas. O elevado grau de degradação é fruto de uma exploração que vem desde o período colonial e atravessa os três biomas maranhenses: a Amazônia, o cerrado e a zona costeira.
A exploração de recursos e o desmatamento da região, uma das primeiras da Amazônia a ser ocupada, deixaram consequências sociais graves, que hoje se refletem em um dos piores IDHs (índices de desenvolvimento humano) do país, na escassez de água e no cenário de violência no campo.
Segundo ativistas de comunidades tradicionais, o avanço do agronegócio nos últimos anos tem escalonado esses problemas. Além disso, na avaliação deles, o discurso do presidente Jair Bolsonaro estaria empoderando criminosos que atuam na grilagem e no roubo de madeira no estado.
"Essas atividades impõem novas formas de ocupação territorial, expulsando comunidades tradicionais. A crise tem se agravado nos últimos anos. Percebemos um avanço significativo de situações conflituosas, resultando em assassinatos no campo, uma série de pessoas ameaçadas e na destruição do meio ambiente", diz Cabral.
Sobre esses problemas, o Governo do Maranhão diz que implementa, desde 2015, medidas para prevenir e conter conflitos agrários, com ações que vão da proteção às vítimas de violência ao mapeamento de comunidades tradicionais para direcionar políticas públicas.
A gestão de Carlos Brandão, candidato à reeleição e atual líder nas pesquisas, também destaca projetos voltados para a conservação e recuperação ambiental (Programa Maranhão Verde) e para combater as queimadas (Programa Maranhão Sem Queimadas) — esse último em parceria com prefeituras. Atualmente há 15 unidades de conservação estaduais, sendo dez delas na Amazônia Legal.
"O grande problema da Amazônia maranhense é a falta de Amazônia", resume a ecóloga Marlucia Martins, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi e autora do livro "Amazônia Maranhense: Diversidade e Conservação".
Segundo o Código Florestal Brasileiro, 80% da vegetação contida nas propriedades rurais da região amazônica devem ser preservadas, sob a forma de reserva legal. O Maranhão, porém, decidiu usar a prerrogativa legal de redução desse percentual para 50% em áreas rurais consolidadas.
A ação, incluída no chamado ZEE (zoneamento ecológico econômico), foi criticada por ambientalistas. "Isso deu a possibilidade de recuperar apenas 50% da floresta, não 80%", critica Martins. "Apesar de estar muito devastada, o potencial de regeneração da floresta ainda é alto."
A maior parte da floresta preservada na região está concentrada em grandes blocos no chamado Mosaico Gurupi, área do Maranhão e do Pará que inclui seis territórios indígenas e uma reserva biológica federal, com bolsões de vegetação secundária (que renasceu após desmate).
A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo
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