
22/09/2022
Florestas mais preservadas são aquelas sem presença humana, certo? Não exatamente. Um estudo recente mostra que a ocupação indígena é capaz de preservar ainda mais a natureza. Realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), com dados do MapBiomas, o trabalho evidencia que, nos últimos 35 anos, essas populações garantiram uma proteção maior a 20% da vegetação nativa no país, o que confirma o título de “guardiões da floresta” para os povos originários.
A análise revelou que as terras indígenas (TIs) e reservas extrativistas (Resex) — espaços destinados às populações tradicionais extrativistas— foram mais preservadas em sua cobertura vegetal do que unidades de conservação de proteção integral, que não permitem a presença humana.
— Essas populações têm uma outra visão de mundo, outra forma de interagir com o meio ambiente, o que se mostrou positivo para o manejo da paisagem — afirma Antonio Oviedo, coordenador do Programa de Monitoramento do ISA. — É um modelo de governança que se mostrou muito eficiente. Quando abrem um roçado, por exemplo, eles têm conhecimento para minimizar os danos, mesmo com manejo do fogo. Além disso, promovem uma vigilância territorial contra invasores. O mesmo se dá com a comunidade extrativista, que depende da natureza para produzir.
Oviedo explica que a chamada “tecnologia social” desenvolvida pelos povos originários estabelece uma relação de desenvolvimento para a floresta e a população. Além do manejo na mata, essas comunidades criaram formas eficientes de organização que contribuem positivamente para a proteção do território.
— A floresta precisa de pessoas, e pessoas precisam de floresta. Quando se investe numa relação saudável e sustentável, é benéfico para os dois lados. É possível criar alternativas econômicas a partir de uma floresta preservada — garante o especialista do ISA.
O estudo se debruçou sobre uma série histórica de 35 anos da evolução da cobertura vegetal no país, do MapBiomas, analisando quatro aspectos: porcentagem da área preservada; área em rotação (média de tempo até que uma terra antropizada volte a ter cobertura natural); regeneração (retrato do momento da área em regeneração); e intensidade de manejo (impacto do manejo sobre a velocidade de regeneração da floresta).
Essas quatro dimensões foram comparadas entre unidades de conservação que permitem populações tradicionais e aquelas de proteção integral. Nas terras indígenas, territórios quilombolas, reservas extrativistas e reservas de desenvolvimento sustentável, os índices de preservação e regeneração florestal foram maiores, e os ciclos de alternância entre desmatamento e regeneração ocorreram em intervalos menores, o que revelou um manejo eficiente sobre a natureza.
Atualmente, 40,5% das florestas brasileiras são áreas protegidas. No entanto, as áreas com presença de povos indígenas e outras populações tradicionais preservam cerca de 30,5% das florestas no Brasil.
O estudo também alerta para o crescimento do desmatamento a partir do início do governo de Jair Bolsonaro. Nos últimos três anos, o aumento, dentro de TIs, foi de 138%. Enquanto isso, a Fundação Nacional do Índio (Funai) perdeu, no período, 21,5% de seus recursos, segundo outro estudo do ISA e da UFRJ.
— É urgente retomar a demarcação das terras indígenas e fortalecer a proteção e gestão das áreas de proteção ambiental — afirma Oviedo
Fonte: O Globo
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