
15/09/2022
A maior seca dos últimos 500 anos na Europa, a mais severa onda de calor na China desde a década de 1960 e a intensidade das chuvas de monção na Ásia não deixam dúvidas: a mudança climática já afeta a vida em todo o mundo. Com mais da metade da população concentrada em áreas urbanas, cabe às cidades buscar alternativas que amenizem os efeitos — e muitas delas têm sido baseadas na própria natureza. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que incentiva a busca de soluções para mitigar efeitos das mudanças climáticas, parques urbanos podem reduzir a temperatura, em média, aproximadamente 1°C durante o dia.
É de olho em resultados como este que Medellín, na Colômbia, transformou ruas em corredores verdes, sombreados por copas de árvores, reduzindo a temperatura em cerca de 2°C nestes locais. Cingapura incentiva vegetação densa na fachada de prédios. Milão, na Itália, planeja plantar 3 milhões de árvores até 2050, depois que o uso de ar-condicionado durante a última onda de calor causou problemas no fornecimento de energia. E, agora, governos locais no Brasil também vêm apostando em ações ecológicas para mitigar os problemas.
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Distrito Federal (DF) e Recife integram o programa Citinova, do PNUMA, financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente. Em Brasília, a previsão é que os períodos sem chuva e mais quentes serão mais longos, ameaçando o abastecimento d´água. Em Recife, tempestades mais volumosas e com duração mais curta poderão causar mais inundações, enxurradas e deslizamentos. Este ano, a Região Metropolitana de Recife registrou a terceira maior chuva da história, com pelo menos 180 mortos.
Os dois locais enfrentarão problemas diferentes decorrentes da mudança climática, mas, no pacote de soluções de ambos, está a recuperação de vegetação no entorno de rios e lagos, o plantio de mais árvores nas ruas e a formação e recuperação de bosques. Ainda que fragmentadas, florestas urbanas são capazes de reduzir a temperatura do ar, aumentar a umidade, interceptar a radiação solar e facilitar a ocorrência de ventos leves próximos à superfície.
Em Recife, as duas margens do Rio Capibaribe começam a abrigar um parque linear, que ocupará um total de 30 km. Dois trechos de pouco mais de 1 km estão prontos — os parques das Graças e Baobá.
Em Brasília, árvores estão sendo plantadas no entorno do Lago Paranoá e do Rio Descoberto, projeto visto como essencial para garantir água para a população no futuro. O Planalto é um divisor de águas para as bacias dos rios Tocantins-Araguaia, Paranoá e São Francisco.
— A água passa e vai embora. A manutenção da segurança hídrica é a grande vulnerabilidade — explica Hugo Mendes, especialista em Mudança do Clima, da Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal.
A água de chuva, portanto, tem de ser armazenada. Uma das propostas é criar parques com piscinões subterrâneos para armazenar água, inspirados no sistema de captação de chuva do Parque Güell, em Barcelona, projetado pelo arquiteto Antoni Gaudí.
— Preparar-se para as mudanças climáticas é o maior desafio que a humanidade vai enfrentar nesse século. Não é simples. Se não enfrentar corretamente não se sabe o quão complicado será viver no planeta daqui a alguns anos — afirma o especialista.
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Em Pernambuco, a natureza contribui também para despoluir rios. O riacho do Cavouco é palco de uma experiência piloto de “jardim filtrante”, formados por espécies capazes de filtrar o esgoto.
— Nessa primeira fase, serão filtrados 10% do volume de água, mas o teste será replicado em novos trechos — afirma Carlos Ribeiro, secretário de Meio Ambiente de Recife.
O sistema, adotado no Riacho Pajeú, no município de Sobral, no Ceará, conseguiu reduzir em 50% a quantidade de coliformes fecais.
Com temperatura que chega fácil a 37°C, Sobral plantou 1.640 árvores em dois anos e acaba de iniciar a implantação de corredores verdes em bairros carentes de vegetação. Copas de árvores como ipês, mangueiras e jenipapo — este último alcança 15 metros de altura — vão se encontrar e formar um túnel verde.
— Faz uma enorme diferença caminhar em áreas sombreadas e isso estimula as pessoas a percorrer os trechos a pé — diz Marília Lima, secretária de Urbanismo, Habitação e Meio Ambiente de Sobral.
Maior cidade do país, São Paulo concluiu durante a pandemia um plano de arborização. Em junho passado iniciou contrato para plantio de 45 mil árvores por ano.
A maior dificuldade, porém, é a disputa de espaço com fiações áreas e infraestruturas subterrâneas, que muitas vezes acabam priorizadas. O plano depende ainda das 32 subprefeituras, que apontarão onde plantar. Priscilla Cerqueira, coordenadora do plano, defende que a discussão seja levada ao plano diretor da cidade.
— Em áreas urbanas, é a somatória de pequenas ações pontuais que faz a diferença — explica Kelen Dornelles, professora do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
Segundo ela, a presença de árvores no entorno e o uso de cores claras nas paredes externas e lajes ajudam a reduzir as temperaturas dentro e fora. Imóveis pintados com cores claras, por exemplo, absorvem até 80% menos calor. A cor preta, que se multiplica em São Paulo em bares e barbearias, absorve 95% da radiação solar e exige uso constante de ar condicionado.
Kelen afirma que a legislação avançou nos últimos dez anos e exige melhor desempenho térmico de edifícios. Há ainda selos e certificados, mas eles muitas vezes são buscados por garantir maior valor de venda, devido ao menor uso de energia e água.
As ações ecológicas, segundo especialistas, enfrentam no país problemas que vão de falta de verba a descontinuidade.
Alessandro Zabotto, especialista em arborização urbana, lembra que pequenos municípios, na maioria das vezes, sequer têm técnicos para fazer projetos e disputar financiamentos e apoio.
Há ainda a pressão pelo crescimento urbano, que costuma ser desordenado.
— As cidades enfrentam a pressão imobiliária. As empresas vendem a ideia de empreendimentos próximos a parques, mas fazem muito pouco para preservar o que há de verde — diz a professora Helena Ribeiro, do Grupo de Pesquisa Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados da USP.
Para Marcos Baptista, da Agência Recife para Inovação e Estratégia, a maior preocupação da mudança climática é a consequência para as populações mais pobres.
— É na resiliência climática que a desigualdade vai se mostrar de forma mais cruel. Os mais pobres são os mais vulneráveis. A grande missão da humanidade é reduzir essa desigualdade — resume o pesquisador.
Fonte: O Globo
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