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Falha em retardar o aquecimento global terá efeitos irreversíveis, dizem cientistas

13/09/2022

O fracasso em limitar o aquecimento do clima global às metas estabelecidas pelos acordos internacionais provavelmente desencadeará vários pontos de inflexão climáticos, disse uma equipe de cientistas na última quinta (8), com efeitos irreversíveis, como o colapso das camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental, degelo abrupto do permafrost no Ártico e a morte dos recifes de coral.
Os pesquisadores disseram que, mesmo no nível atual de aquecimento, cerca de 1,1°C acima dos níveis pré-industriais, algumas dessas mudanças autossustentáveis podem já ter começado. Mas, se o aquecimento atingir mais de 1,5°C, a mais ambiciosa das duas metas estabelecidas pelo Acordo de Paris de 2015, as mudanças se tornariam muito mais certas.
E na meta mais alta de Paris, 2°C, ainda mais pontos de inflexão provavelmente seriam desencadeados, incluindo a perda de geleiras de montanha e o colapso de um sistema de mistura profunda de água no Atlântico Norte.
As mudanças teriam efeitos significativos e de longo prazo sobre a vida na Terra. O colapso das camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental, por exemplo, levaria à elevação implacável do nível do mar, de muitos centímetros ou metros ao longo dos séculos. O degelo do permafrost liberaria mais gases que retêm o calor na atmosfera, dificultando os esforços para limitar o aquecimento. Uma interrupção da mistura oceânica no Atlântico Norte poderia afetar as temperaturas globais e causar condições climáticas mais extremas na Europa.
Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático na Alemanha e um dos pesquisadores, disse que a equipe "chegou à terrível conclusão de que 1,5°C é um limite" além do qual alguns desses efeitos começariam. Isso torna ainda mais imperativo, segundo ele e outros, que os países cortem rápida e drasticamente as emissões de dióxido de carbono e outros gases que retêm o calor, para conter o aquecimento global.
A pesquisa está alinhada com avaliações recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC na sigla em inglês), um grupo de especialistas convocado pela ONU, de que além de 1,5°C de aquecimento as ameaças das mudanças climáticas crescem consideravelmente.
"Isso realmente dá forte apoio científico aos cortes rápidos de emissões, conforme o Acordo de Paris", disse David Armstrong McKay, cientista climático da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha, e principal autor de um artigo que descreve o trabalho dos pesquisadores, publicado na revista Science. Limitar o aquecimento a 1,5°C "não garante que não veremos pontos de inflexão", disse McKay. "Mas reduz a probabilidade."
Assim como nas avaliações do painel da ONU, ultrapassar a meta de 1,5°C não significa que tudo está perdido. "Cada décimo de grau conta", disse Rockström. "Então 1,6°C é melhor que 1,7°C e assim por diante" para reduzir os riscos de pontos de inflexão.
Os países não se comprometeram a reduzir as emissões de gases de efeito estufa o suficiente para cumprir a meta de Paris, embora a legislação sobre clima e energia aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos no mês passado aproxime o país de suas próprias metas. As políticas atuais colocam o mundo no rumo de quase 3°C de aquecimento até o final do século. Nesse nível, ainda mais pontos de inflexão seriam desencadeados, disseram os pesquisadores.
O conceito de pontos de inflexão climáticos existe há décadas. Mas também foi acompanhado por um alto grau de incerteza e debate, inclusive sobre as temperaturas limite além das quais algumas mudanças começariam e se alguns desses eventos atendem à definição de mudanças que seriam autossustentáveis, não importa qual seja o aquecimento futuro.
Um grande estudo em 2008 identificou mais de uma dúzia de partes do sistema da Terra que poderiam atingir um ponto crítico. A nova pesquisa eliminou algumas e adicionou várias outras, identificando um total de 16 partes, incluindo nove que teriam efeitos globais.
Entre as eliminadas, disse McKay, estava o gelo marinho do Ártico no verão. Embora a extensão do gelo tenha diminuído constantemente durante décadas, ele disse que não há um limite claro além do qual o declínio se tornaria autossustentável.
Mas o principal objetivo da nova pesquisa, que revisou estudos que usaram dados de climas passados, observações atuais e simulações de computador, foi reduzir a incerteza sobre quando os pontos de inflexão poderão ser atingidos.
O estudo "coloca limites de temperatura em todos os elementos de inflexão", disse Rockström. "Isso nunca foi feito antes."
Thomas Stocker, cientista climático da Universidade de Berna, na Suíça, que não participou do estudo, alertou que são necessárias muito mais pesquisas sobre o assunto dos pontos de inflexão. "Não é a palavra final", disse ele sobre as conclusões do estudo. "É uma contribuição para uma conversa importante que está em andamento."
O que é necessário, disse Stocker, é uma análise abrangente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, talvez como parte da próxima rodada de avaliações, que deve ocorrer na segunda metade desta década.

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