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Quebradeiras de coco criam consórcio para alcançar mercado mundial

07/12/2021

Maria Gomes da Silva completa 90 anos em janeiro. "Todo o tempo quebrando coco, toda a vida pegando a machadinha para ajudar minha mãe."
Sentada no chão junto à parede de pau-a-pique ("enchimento", como se diz no povoado Ludovico, em Lago do Junco, MA), a anciã maneja com destreza o porrete que bate o coco contra a lâmina fixada no bloco de madeira. De cada fruto retira em média quatro amêndoas, com as quais se produz um óleo vegetal em demanda crescente pela indústria cosmética e de alimentos.
"Criei quatro filhos, tudo debaixo da casinha forrada de palha", orgulha-se. A moradia de barro abriga a neta, pois a sua agora é de alvenaria, sinal da melhora na vida das 300 mil quebradeiras de babaçu do Brasil, 135 mil delas no estado do Maranhão.
Hoje Maria consegue extrair 3 kg de amêndoas de cocos de babaçu, mas houve tempo em que tirava 10 kg, de segunda a sexta –ou sábado. Mantida uma produção de 5 kg por dia, ao longo da vida terá obtido umas 140 toneladas, ou cerca de 35 milhões de amêndoas.
Houve tempo em que os 10 kg diários lhe renderiam 1 kg de arroz ou de café com atravessadores e fazendeiros donos de babaçuais. Hoje, pode escolher entre receber R$ 3,80 por quilo e trocar o lote por mercadorias entre os mais de 2.500 itens das oito cantinas da região (no vizinho Tocantins, o preço pode cair a R$ 1,50 por quilo).
Cantina é o nome local dos mercadinhos da Coppalj (Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Lago do Junco), uma das 12 organizações envolvidas na criação do Consórcio Babaçu Livre e na realização, em 11 e 12 de novembro, do encontro preparatório Não Derrube Essa Palmeira, reunindo as quebradeiras do Médio Mearim, região maranhense onde fica Lago do Junco.
O consórcio será criado numa reunião geral em março e coroa o esforço das quebradeiras para conquistar o mercado internacional com um produto sustentável de origem tradicional. As quebradeiras contam com assistência técnica da Central do Cerrado, uma cooperativa baseada em Brasília.
"No Tocantins tem quebradeira / No Piauí tem quebradeira / No Pará tem quebradeira / No Maranhão tem quebradeira", cantavam dezenas de mulheres congregadas na igreja do povoado São Manoel, sob o ritmo de palmas. Elas integram o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).
Os babaçuais, ou matas de cocais, são característicos da zona de transição ecológica entre floresta amazônica, cerrado e caatinga. Estendem-se por 250 mil km2 –superfície comparável à do estado de São Paulo– e estão sob forte pressão da agropecuária nos quatro estados (há levantamentos a indicar que a área pode ter aumentado nas últimas décadas, ainda que com densidade variável de palmeiras).
De todo modo, na parcela maranhense da Amazônia Legal, 5.838 km2 (5,4%) de floresta chuvosa já foram desmatados, 281 km2 só no último ano. Na parte que lhe cabe de cerrado (savana), a devastação foi maior, 39.593 km2 (13,6%), com o avanço do agronegócio sobre o setor conhecido como Matopiba (acrônimo para Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).
Rebeca, 1, não sorri na rede em que observa a avó Maria Célia Sousa Lima e o avô Francisco da Conceição quebrarem cocos. Desce da rede para ver de perto os forasteiros que chegam e aponta as cadeiras em que devem se sentar, ainda sem sorrir nem falar.
Com auxílio do marido, a avó extrai até 20 kg de amêndoas por dia, das quais produz o "azeite" por método caseiro, que começa pela torra e pela moagem numa máquina forrageira, depois cozimento. "Dá trabalho demais", diz, para obter até quatro litros por dia do óleo que vende a R$ 15 o litro para vizinhos.
O processo tradicional é ineficiente, pois retira cerca de 20% de gordura das amêndoas, que em realidade contêm 60% de óleo. Na fábrica instalada pela Coppalj em Lago do Junco, as prensas e chaleiras industriais conseguem um rendimento muito maior, da ordem de 56%.
Durante a visita da Folha, havia 35 toneladas de amêndoas estocadas para processamento na fábrica. Três funcionários estavam envasando 16.000 kg de óleo bruto para a Natura, sexto embarque de um dos dez lotes contratados pela empresa.
Um dia antes, com as chaleiras a todo vapor, 4.200 kg de amêndoas tinham rendido 2.430 kg de óleo e 1.440 kg de torta, o resíduo contendo 30% de proteína e 6% de óleo destinado a alimentação de gado. Num galpão ao lado, a Coppalj começou a refinar o óleo para vender com certificação orgânica.
No mercado convencional de óleo de babaçu, o óleo comum fatura R$ 7,50 por quilo. Refinado, chega a R$ 15. Com certificação, pode atingir R$ 20. Em Brasília, R$ 30 –é o que se chama de agregação de valor, chave para melhorar a renda das quebradeiras.

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