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‘A natureza não está aí para o nosso consumo’, diz botânico italiano Stefano Mancuso

30/11/2021

Existe uma nação sem hierarquias ou fronteiras onde é proibido o uso de recursos naturais não renováveis. É a “nação das plantas”, cuja Constituição foi escrita pelo botânico italiano Stefano Mancuso, um dos convidados da Flip. Autor de títulos como “Revolução das plantas” e “A planta do mundo”, publicados no Brasil pela Ubu, ele é um dos principais proponentes da “neurologia vegetal”. Defende que as plantas são inteligentes, comunicam-se umas com as outras e cooperam entre si graças a uma complexa rede formada por raízes e fungos, uma espécie de internet vegetal.
Em janeiro, seu livro “A incrível viagem das plantas” chegará, em primeira mão, aos participantes do clube Assinatura Flip_se, parceria da festa literária com a livraria Dois Pontos. Em entrevista ao Globo, de Florença, o botânico listou as lições que a “nação das plantas” pode nos dar.

Como uma discussão sobre plantas pode ser política?

Ver as coisas do ponto de vista das plantas é revolucionário. Somos quase o oposto delas. Nós consumimos energia e recursos. Elas produzem. Nosso organismo é concentrado e hierárquico. O delas é difuso, em rede. Fizemos o mundo à nossa imagem: todas as organizações são hierárquicas, há sempre uma “cabeça” no topo que toma todas as decisões. Isso é muito ineficiente. As plantas não têm nada que se compare ao nosso cérebro. Funcionam em rede, como a internet. Todas as decisões são tomadas localmente.


Que lições as plantas nos dão?

Nós achamos que só os mais inteligentes e fortes sobrevivem, mas não é assim que a vida funciona. As plantas sabem que a verdadeira força da evolução não é a competição, mas a cooperação. Uma floresta é um superorganismo. Todas as plantas estão interligadas por meio de uma rede subterrânea de raízes de fungos. Há uma troca contínua de água, nutrientes e informação. Florestas são escuras. Uma planta jovem demora anos para crescer o suficiente para ter acesso à luz do sol. Ela sobrevive, sustentada por todas as suas vizinhas. Entre os humanos, esse tipo de cooperação só existe no interior das famílias. Para as plantas, isso é natural.


Seu livro “A nação das plantas” imagina uma Constituição vegetal. Que direitos têm os cidadãos da nação das plantas?

A Constituição das plantas tem oito artigos. O primeiro afirma que a nação das plantas reconhece a Terra como o lar comum de toda a vida e que todo ser vivo é soberano. A nação das plantas não reconhece nenhuma hierarquia ou fronteiras e proíbe o consumo de quaisquer recursos que não sejam renováveis para as próximas gerações.


Por que temos mais facilidade em reconhecer a inteligência das máquinas do que a das plantas?

Inteligência é capacidade de resolver problemas. Nos achamos mais inteligentes do que os outros seres vivos pelo tamanho do nosso cérebro, mas a inteligência é medida pela eficiência em cumprir objetivos. Qual o objetivo de todos os seres vivos? Sobreviver e garantir a propagação da espécie. Nosso cérebro pode criar a teoria da relatividade e escrever “Os irmãos Karamázov”, mas isso não tem nada a ver com nosso objetivo como espécie. A média de vida das espécies no planeta é de 5 milhões de anos. O Homo sapiens existe há 300 mil anos. Se fôssemos tão inteligentes quanto a média das outras espécies, sobreviveríamos mais 4,7 milhões de anos. Mas ninguém acredita nessa possibilidade.


Você é pai de planta?

Sim. Minha casa é uma selva, para o desespero de minha mulher. As plantas são minha companhia. Ao cuidarmos de seres tão diferentes como as plantas, aprendemos a abraçar a diversidade. Gosto de todas as plantas, mas minhas preferidas são as laranjeiras, os limoeiros e as palmeiras.


Tratar as plantas como seres inteligentes tem impacto na preservação ambiental?

Sim. Mas não acredito que os governos estejam realmente interessados em preservar o meio ambiente. O problema é que vemos a natureza como um conjunto de recursos para nosso consumo. Não enxergamos as plantas, mas a madeira. A natureza não está aí para o nosso consumo. Ela nos dá a possibilidade de sobreviver. Destruí-la é dinamitar a fundação do edifício em que vivemos.

Fonte: O Globo

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