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Megafazenda na Bahia avança em desmatamento, ameaça cerrado e isola comunidades

25/11/2021

Entre os vales onde correm os rios Preto e Riachão, no oeste da Bahia, uma região exuberante que abriga mata nativa de cerrado começou a ser derrubada para dar lugar ao plantio de soja, milho e algodão.
A empresa Delfin Rio S/A, que faz parte do Condomínio Cachoeira do Estrondo —conjunto de fazendas na cidade de Formosa do Rio Preto— iniciou no segundo semestre de 2021 o desmatamento de áreas de cerrado. A empresa foi autorizada a suprimir 24,7 mil hectares, área maior do que a do Recife (a capital pernambucana tem 21,8 mil hectares).
A autorização foi concedida pelo governo da Bahia em maio de 2019, início do segundo mandato do governador Rui Costa (PT). Desde então, o aval tem sido alvo de questionamentos de ambientalistas e associações que representam os pequenos agricultores que vivem há cerca de 200 anos na região.
A empresa, por sua vez, diz que está cumprindo as condicionantes da licença ambiental emitida pelo Inema, órgão ambiental da Bahia, e destaca que deve desmatar apenas 2.500 hectares, cerca de 10% da área autorizada.
Além de impactos ambientais e nas comunidades tradicionais, a área que começa a ser desmatada faz parte de um litígio que envolve o próprio estado da Bahia. O governo baiano move uma ação na Justiça na qual reivindica a propriedade de áreas ocupadas pela megafazenda.
O Condomínio Cachoeira do Estrondo é apontado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) como a maior área grilada da Bahia e uma das maiores do Brasil.
Além disso, áreas que são apontadas pelas empresas como de reserva legal são alvo de uma ação possessória movida pelas comunidades tradicionais. Em junho, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a posse de 43 mil hectares para os geraizeiros, nome dado às comunidades tradicionais da região.
"O Condomínio Estrondo está fazendo uma ‘grilagem verde’. Eles registram as áreas mais próximas dos rios, que pertencem às comunidades, como reserva legal para liberar áreas planas para desmatamento. A reserva legal fica sobreposta ao território tradicional, o que é ilegal", argumenta Juliana Borges, da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia.
A supressão da mata nativa começou em julho, mês no qual foi registrado o desmate de 1.200 hectares, segundo dados do satélite Planet disponibilizados pelo Greenpeace. Em novembro, o desmatamento voltou a avançar, chegando a 3.000 hectares.
Nas últimas semanas, comunidades locais flagraram o desmatamento com o uso do correntão. Essa técnica consiste no uso de uma corrente com elos espessos cujas extremidades são presas em tratores. Os equipamentos avançam de forma paralela fazendo o corte raso da vegetação, o que pode causar a morte e mutilação de animais.
As cerca de cem famílias de geraizeiros da região estão apreensivas com a possibilidade de perda da mata nativa. A comunidade Cachoeira, por exemplo, fica a três quilômetros da área devastada.
"É uma das poucas áreas da região onde existe ainda cerrado. Fica entre os vales de dois rios muito importantes, o rio Preto e o Riachão. A devastação vai ter um impacto enorme na questão da água", afirma o agricultor Jassone Lopes Leite, 41, da Associação Comunitária Geraizeira de Cachoeira.
Ele afirma que as comunidades negociam com a prefeitura de Formosa do Rio Preto a criação de uma unidade de conservação de 5.000 hectares para proteger áreas de cerrado, mas não houve avanços. A reportagem não conseguiu contato com a prefeitura.
Além da importância ambiental, a supressão do cerrado na região também tem impacto econômico nos geraizeiros, que vivem da agricultura de subsistência com o plantio de feijão, arroz e mandioca.
Além de preservar os animais e os cursos de água, a mata de pé serve como fonte de renda adicional das famílias que coletam e vendem frutos de espécies nativas, como buriti, pequi, mangaba e araçá, além de capim dourado, usado em peças de artesanato.
Morador da comunidade Cachoeira desde que nasceu, Adão Batista Gomes, 60, afirma que as áreas desmatadas eram usadas para o pastoreio do gado, que é criado solto. E diz lamentar a perda de uma das poucas áreas próximas da comunidade ainda preservadas: "O único corredor de cerrado em pé que temos próximo eles estão desmatando".

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