
23/11/2021
Enquanto o governo Bolsonaro tenta um recuo retórico em seus discursos internacionais, presidenciáveis como Lula, Eduardo Leite e João Doria aproveitam as agendas no exterior para marcar posição sobre a pauta que deve condicionar o apoio internacional à recuperação econômica brasileira nos próximos anos: o compromisso com a conservação da Amazônia.
O recado tem sido dado ao governo de Jair Bolsonaro de forma bastante contundente pela União Europeia e, mais recentemente, também pelos Estados Unidos e pela China.
Os três maiores parceiros comerciais do Brasil estão decididos a compatibilizar a cooperação econômica e também as importações às suas metas de redução de emissões de gases-estufa.
Fóruns econômicos como Davos e as reuniões do G20 também reforçam a mensagem: os critérios ambientais devem compor a equação do desenvolvimento econômico para que o mundo possa enfrentar a crise climática. Afinal, boa parte das emissões que levam ao aquecimento global está concentrada no setor energético global –um motor literal da economia.
Mas o governo brasileiro demorou para entender como a agenda climática tem pautado a lógica econômica. "Eu sentei com a secretária do Tesouro americano e ela começou perguntando sobre meio ambiente", contou com tom de surpresa o ministro Paulo Guedes (Economia), em participação por vídeo na COP26, a conferência de clima da ONU, concluída no último sábado (13).
"Este é o Brasil real", repetiu à exaustão o ministro Joaquim Leite (Meio Ambiente) em discursos que enalteciam vantagens ambientais do país –"gigante pela própria natureza"– na COP26.
Ele evitou responder aos questionamentos da Folha sobre os dados de desmatamento. "Não estou acompanhando", insistiu até um dia após o fim da COP.
Mas o governo já havia recebido, em 27 de outubro, o relatório do Prodes que só seria publicado na última quinta-feira (18), revelando que a Amazônia perdeu mais de 13 mil km2 de florestas entre agosto de 2020 a julho deste ano. Um recorde dos últimos 15 anos.
Entre 2012 e 2015, quando o desmatamento na Amazônia atingia o mínimo histórico, próximo de 5.000 km2, o Brasil passou a divulgar os dados logo antes das conferências climáticas da ONU.
Já quando os dados são negativos para a conservação do bioma, o resultado da estimativa anual demanda preparo político para responder às cobranças e encaminhar políticas que renovem as estratégias de combate ao desmatamento, o que justifica o envio do relatório do Inpe ao governo e sua decisão sobre o melhor momento político para a divulgação.
Desta vez, no entanto, o adiamento do anúncio não veio acompanhado de qualquer preparo político que oferecesse explicação, revisão de estratégia ou renovação de um compromisso.
Ao finalmente publicar o relatório, sem ação de divulgação, o governo manteve o registro da data de envio do documento pelo Inpe, permitindo –não se sabe se por descuido ou por desprezo– a confirmação de que os dados já estavam prontos e foram omitidos do mundo no momento em que o país seria cobrado por sua política ambiental.
Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo
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