
18/11/2021
Um estudo que analisou dados de centenas de cidades brasileiras ao longo de 16 anos sugere que o aumento de 1 grau Celsius na temperatura média pode elevar em quase 1% o risco de internações por doenças que afetam os rins.
O estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade Monash, da Austrália avaliou os registros de saúde de 1.816 cidades brasileiras entre 2000 e 2015.
No período, foram registradas mais de 2,7 milhões de internações relacionadas a problemas nesses órgãos, como pielonefrite (um tipo de inflamação), falência renal aguda e doença renal crônica.
O trabalho, recém-publicado no periódico especializado The Lancet Regional Health - Américas, sugere que 7,4% de todas essas internações, ou 202 mil casos de crise renal, podem ser atribuídas diretamente ao aumento da temperatura.
A título de comparação, 202 mil pessoas equivalem aproximadamente a população inteira de cidades como Araçatuba (SP), Lauro de Freitas (BA) ou Passo Fundo (RS).
Embora o estudo seja de associação e não permita estabelecer uma relação direta de causa e efeito, os autores especulam algumas possíveis explicações para a ligação entre aumento da temperatura e mais doenças nos rins.
"De forma geral, os problemas renais podem acontecer por causa da desidratação, que está relacionada ao aumento na temperatura", explicam os médicos Yuming Guo e Shanshan Li, professores de saúde ambiental e saúde pública da Universidade Monash e autores principais do artigo.
Eles responderam por e-mail a algumas perguntas enviadas pela reportagem da BBC News Brasil
A mecânica é relativamente simples: no calor, o suor ajuda a manter a temperatura corporal estável. Mas a perda de líquidos pode dificultar o trabalho dos rins, que sofrem para cumprir a sua missão de filtrar o sangue e manter o equilíbrio de diversas substâncias essenciais para nossa sobrevivência.
Esses órgãos, então, podem passar por crises agudas e deixam de funcionar como deveriam ou sofrem com infecções e inflamações decorrentes de todo esse desgaste.
O trabalho recém publicado ainda observou que a saúde renal de alguns grupos acaba mais afetada pelo aumento da temperatura. Os que mais sofrem com a subida do calor são as mulheres, as crianças com menos de 4 anos e os idosos com mais de 80 anos.
Para o patologista Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP e um dos cientistas brasileiros que assinam o estudo, dois fatores ajudam a explicar essa maior vulnerabilidade, especialmente nos extremos da vida.
"Indivíduos muito jovens ou muito idosos costumam ter o ´termostato´ do corpo, que envolve receptores na pele responsáveis por perceber o calor, imaturo ou desregulado. Com isso, o organismo não aciona muito bem os mecanismos que regulam a temperatura", afirma.
Além disso, é necessário ofertar água continuamente para pessoas dessas faixas etárias, pois a percepção de sede é diferente e se modifica ao longo da vida.
Sem a vontade de beber água (ou sem a possibilidade de pegar um copo por conta própria, no caso dos bebês), o risco de desidratação fica ainda mais alto. E essa sequência de características e particularidades dessas idades prejudica, mais uma vez, os rins.
A médica Andrea Pio de Abreu, diretora da Sociedade Brasileira de Nefrologia, classifica as doenças renais como um problema de saúde pública oculto no país.
"No Brasil, uma em cada dez pessoas tem doença renal e muitas nem sabem disso, pois não apresentam sintomas e nunca fizeram o diagnóstico", alerta a nefrologista, que não esteve envolvida diretamente com a pesquisa publicada no The Lancet.
"O problema é que esses quadros podem permanecer ocultos por anos e os rins só dão algum sinal quando operam com menos de 50% da capacidade original", conta.
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