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Peixe-leão ameaça Fernando de Noronha, Venezuela e Caribe

16/11/2021

"É lindo, mas tenho que matá-lo", afirma María Virginia Escalona sobre o peixe-leão, que se prolifera vertiginosamente e põe em perigo o ecossistema da Venezuela, do Caribe e do Atlântico ocidental.
"Causa muitos prejuízos", acrescenta a enfermeira e pescadora subaquática amadora que participa de um concurso patrocinado pelo governo venezuelano para conter a espécie.
O também conhecido como peixe-escorpião voador ou zebra geralmente tem cores vivas, espinhos e barbatanas espetaculares, mas é venenoso. Originário dos oceanos Índico e Pacífico, o animal vem se espalhando entre as costas da Flórida e o norte do Brasil.
Em Fernando de Noronha, houve o registro de 11 ocorrências do animal em menos de dois meses. O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) também catalogou uma aparição no país em dezembro do ano passado.
Insaciável, alimenta-se de ovos, pequenos peixes, crustáceos e moluscos, sendo responsável, em parte, pelo declínio de outras espécies da região, ao lado da poluição, aquecimento global e pesca predatória.
"É um peixe invasor, não tem inimigos, não tem predador" na região, explica a pesquisadora venezuelana Laura Gutiérrez, radicada nas Ilhas Canárias depois de passar anos estudando o peixe-leão em seu país.
Ele foi visto pela primeira vez na costa da Flórida, no Atlântico ocidental, em 1985. "As pessoas que os tinham em seus aquários os soltaram porque eles comiam seus peixes ou não tinham como fornecer tanto alimento. Eles os soltaram na água", diz a especialista.
O que acontecia nos aquários se reproduziu em escala gigantesca no Caribe e ameaça se espalhar para o Mediterrâneo, onde já começa a se colonizar.
O peixe-leão não se alimenta apenas de espécies comerciais, mas também de crustáceos e moluscos que mantêm os recifes e corais limpos.
"Não podemos erradicá-lo, mas podemos minimizar seu impacto" com sua caça, afirma a bióloga, que esclarece que não há estatística sobre o número de exemplares na região.
A captura costuma ser complicada, pois como vive em águas profundas esse peixe basicamente só é alcançado por mergulhos no fundo do mar. Eles raramente são pegos em redes de pesca.
Para lidar com a situação, autoridades venezuelanas tentam conter sua disseminação com competições de pesca e promoção de sua carne.
"A única coisa que o controla são os pescadores", diz William Álvarez, 35, um experiente caçador submarino de Chichiriviche de la Costa, uma pequena cidade entre o mar e as montanhas, cerca de 60 km a oeste de Caracas.
Álvarez os caça todos os dias e usa sua carne para fazer ceviche, que vende para uma pequena clientela de Chichiriviche. Ele o batizou de "cevichichi".
Mas o prato não dá muito lucro. Para cada quilo de ceviche de peixe-leão que sai por US$ 20 (aproximadamente R$ 109), são necessários 3 quilos e dezenas de mergulhos, sem contar o tempo que leva para fatiar o peixe.
Desconhecido na maioria das costas venezuelanas, o peixe-leão já assustou algumas comunidades onde foi batizado de "peixe-diabo".
Seu aparecimento repentino, sua beleza estranha, mas especialmente suas barbatanas dorsais pontiagudas que podem causar fortes dores e até paralisia, reforçaram o mistério. E dentro do medo, está a recusa em adicioná-lo à dieta local.
"Temos que introduzir na nossa gastronomia, incorporar rapidamente... fazer workshops explicando o que é, como se maneja os espinhos, como se corta. Explicar que é comestível, também", destaca a bióloga Gutiérrez.

Fonte: Folha de S. Paulo

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