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Cariocas fazem 17 queixas por dia sobre calçadas e três por hora sobre asfalto

09/11/2021

Caminhar pelas calçadas do Rio exige destreza: buracos, tampas desniveladas e pedras portuguesas soltas são convites a acidentes. Também não escapa quem está ao volante. A falta de conservação se reflete na Central 1746 da prefeitura, que recebeu 5.170 reclamações sobre buracos em calçadas de janeiro a outubro, uma média de 17 por dia. Os motoristas procuram muito mais o serviço: foram 23.422 queixas sobre a qualidade do asfalto no mesmo período, mais de três a cada hora.
Um dos inconvenientes mais frequentes na orla são os mosaicos de pedras portuguesas incompletos nos calçadões. Na Praia da Barra, o ponto mais crítico fica perto da Praça do Ó: em apenas 200 metros, há pedras soltas em sete pontos distintos, principalmente no entorno de tampões entre o calçadão e a ciclovia.
Foi neste trecho que o pianista Nelson Freire, que morreu no dia 1º novembro depois de um acidente caseiro, levou um tombo em outubro de 2019, quando fazia sua caminhada diária. O músico fraturou o úmero direito e, depois disso, nunca mais se apresentou ao público ou gravou.
— A gente chegou a sugerir ao Nelson que ele processasse a prefeitura, mas ele não quis. Ele saía de casa de carro, na Joatinga, para caminhadas diárias na Barra. E não foi apenas a fratura. Ele teve escoriações no rosto. Ainda sem saber a gravidade das lesões, pediu ajuda para que populares o auxiliassem a voltar ao carro — recorda-se Glória Guerra, que era empresária do pianista.
Em Copacabana, situação semelhante acontece no Posto 5, no canteiro central da Avenida Atlântica — que, com 33 chamados ao 1746, foi a quarta via da cidade com maior número de reclamações sobre calçada. Lá, mais de uma dezena de buracos impede a circulação de cadeirantes e idosos.
Morador da Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, Fernando Viana diz que sua mãe, de 92 anos, não sai de casa porque tem medo de cair na rua.
— O trauma veio da queda que ela teve na Visconde de Pirajá há uns seis anos, por causa de um buraco. Parece desprezo pelo cidadão: mesmo pagando um dos IPTUs mais caros da cidade, o bairro não tem isso revertido numa simples melhoria de calçada — reclama o engenheiro de 72 anos.
Nem o tombamento como patrimônio da cidade livrou a calçada do Boulevard Vinte e Oito de Setembro, em Vila Isabel, da buraqueira. O desenho com pedras portuguesas que formam partituras desafina do começo ao fim. Equilibrando-se em sua bengala, Reginaldo Freitas, de 80 anos, conta já ter caído ali três vezes:
— A prefeitura precisa olhar com mais atenção para o boulevard porque aqui tem muitos idosos e as quedas são frequentes. Já fui parar no hospital e levei três pontos na testa.
Ali perto, na Tijuca, Anna Paula Coutinho, de 49 anos, lamenta que o carrinho adaptado — que custou R$ 6 mil — para transportar sua filha de 10 anos, que tem paralisia cerebral, não tenha suportado a má conservação das calçadas.
— Com menos de um ano de uso, o carrinho já ficou destruído por causa dos inúmeros buracos e das raízes de árvores. São só 15 minutos a pé até a clínica. Poderia ser uma caminhada tranquila. Agora, estou levando minha filha de Uber. Um novo gasto — disse a moradora da Rua Bom Pastor.
A Tijuca é justamente o lugar com mais reclamações sobre calçadas no 1746: 347 chamados. Na sequência, vêm Campo Grande (333), Centro (275), Copacabana (163) e Barra (112). A Secretaria municipal de Conservação (Seconserva) afirma ter tapado, de janeiro a outubro, cerca de 50 mil metros quadrados de buracos em calçadas.
Mas a secretária da pasta, Anna Laura Valente frisa que apenas parte dos buracos deve ser atribuída à prefeitura, já que a manutenção das calçadas junto aos prédios é de responsabilidade do proprietário — com multa prevista de R$ 464. Além disso, diz, muitas vezes, concessionárias de serviços não refazem a cobertura após suas intervenções.
— Para comércio e residência, notificamos o proprietário até fazer o reparo, e costuma dar certo, sem multa. No caso das concessionárias, foram emitidas mais de 3.600 notificações e mais de 1.600 multas em razão de buracos provocados por reparos de empresas que, juntas, somam mais de R$ 2,5 milhões. Se a multa não for paga, a secretaria de Fazenda pode inscrever a empresa na dívida ativa — resume.
A Secretaria municipal de Fazenda afirma que já recebeu R$ 700 mil em multas da Cedae e da Light este ano. E há por volta de R$ 850 mil em andamento. A Cedae afirma que recebeu, este ano, 164 multas relacionadas à pavimentação que somam cerca de R$ 376 mil. Diz que pagou por volta de R$ 145 mil referente a 73 multas, mas entrou com recurso em 91 delas. Procurada, a Light não respondeu.
Sobre as pedras portuguesas, Anna Laura diz que estão sendo feitos mutirões para consertar boa parte dos calçadões das praias até o verão. Na Vinte e Oito de Setembro, equipes estão, segundo ela, repondo as pedras aos poucos.
A Seconversa informou ter consertado mais de 103 mil buracos nas pistas para veículos, além de ter instalado e reposto mais de 3.100 grelhas e tampões, mas que as sucessivas chuvas prejudicaram o serviço de tapa-buracos no último mês. Já a Operação Asfalto Liso tem previsão para começar no início do ano que vem.
Mas os obstáculos para quem dirige estão no caminho há tempos. Há dois meses, o motorista Francisco Fernandes Carneiro, de 57 anos, trafegava pela Avenida Francisco Bicalho quando a roda e a suspensão do carro quebraram, e ele ainda teve que substituir um pneu. Até hoje, não sabe se foi um buraco ou bueiro sem tampa. Além do dia sem trabalhar, teve prejuízo de R$ 1.500.
— Embora tenha melhorado um pouco, a cidade ainda está uma buraqueira — disse.
Para o engenheiro Luiz Carneiro de Oliveira, os fiscais de contratos firmados pela prefeitura precisam zelar para que as obras sejam feitas com mais qualidade:
— Bem feito, um pavimento novo tem pelo menos dez anos de vida útil. O sistema de drenagem deve ser projetado de forma que a água não se acumule. E um asfalto bem compactado para evitar que ela penetre na base, facilitando o surgimento de buracos e outros problemas — explica.

Fonte: O Globo

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