
09/11/2021
Nas províncias espanholas de Segóvia, Ávila e Valladolid existe um tesouro escondido. Ali, no meio da Tierra de Pinares e da Sierra de Gredos, uma densa floresta de 400 mil hectares de pinheiros se estende em direção às montanhas.
Protegida do forte sol espanhol e repleta de trilhas, essa floresta é um destino popular para moradores e turistas. E quem a visita na hora certa consegue ver operários ao longo dos troncos das árvores, cumprindo a tradição secular de recolher o "ouro líquido" do pinheiro.
A resina de pinho foi usada por diferentes civilizações por milhares de anos. Na Espanha e em grande parte do Mediterrâneo, ela era usada para impermeabilizar navios, tratar queimaduras e acender tochas, entre outras coisas.
Mas, de acordo com Alejandro Chozas, professor do departamento de engenharia florestal da Universidade Politécnica de Madrid, foi somente nos séculos 19 e 20 que a extração de resina de pinheiro se tornou lucrativa naquela região espanhola.
Quando a tecnologia e a industrialização ajudaram a transformar essa seiva espessa em plásticos, vernizes, colas, pneus, borracha e até aditivos alimentares em meados do século 19, os proprietários das densas florestas de pinheiro de Castilla y León enxergaram uma oportunidade.
Trabalhadores começaram a cortar a casca dos pinheiros resinosos em toda a região para coletar a valiosa seiva. E embora este lento processo tenha parado em grande parte do mundo, na última década ele vem tendo um renascimento em Castilla y León, o lugar com mais fabricantes de resinas em toda a Europa e um dos últimos no continente onde esta prática persiste.
Mariano Gómez nasceu em Ávila e trabalhou durante 32 anos na extração de resina de pinheiro.
"Meu pai era produtor de resina e eu aprendi com ele. No começo ele usava machados de lenhador, mas minhas mãos doíam muito. Hoje as ferramentas são mais bem projetadas para cada tarefa, (mas ainda assim) são manuais", explica.
O processo de extração permaneceu praticamente inalterado desde o início desta atividade, mas os fabricantes de resina de hoje criaram ferramentas mais eficientes e ergonômicas, bem como produtos químicos que estimulam a secreção de resina.
Como resultado, os rendimentos e a produtividade aumentaram muito. O que também mudou foi que, no passado, a extração da resina era feita até que as árvores morressem, usando métodos muito agressivos.
Mas, há algum tempo houve uma mudança "para a vida", com uma prática em que o número de incisões na casca é minimizado, reduzindo os danos à árvore.
Nos meses mais quentes de março a novembro, os produtores locais extraem cuidadosamente a resina dos pinheiros, removendo primeiro a camada externa da casca da árvore.
Eles pregam um suporte e colocam um recipiente de coleta. Os puxadores então usam seus machados para fazer incisões diagonais na casca, fazendo com que as árvores "sangrem" e fazendo com que sua resina vaze para o balde. Quando estão cheios, despejam a seiva em recipientes de 200 kg.
Os produtores enviam a substância para fábricas de destilação, que extraem a terebintina da resina de aparência viscosa e amarelada que solidifica quando resfriada, virando brilhantes pedras âmbar.
Durante o boom da extração da resina do pinheiro na Espanha em 1961, quando 55.267 toneladas foram extraídas, mais de 90% vieram das florestas de Castilla y León. A falta de demanda e a queda brusca dos preços levaram a produção a cair e quase desaparecer na década de 1990. Muitos pensaram que esse seria o fim dessa tradição espanhola.
Em Castilla y León, a resina não é apenas um sustento econômico para as comunidades rurais, mas uma atividade que é passada de geração em geração. Muitas famílias têm pelo menos uma pessoa que "sangrou" árvores ou participou de sua destilação.
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