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Animais do Pantanal aprendem a ´mendigar comida´ para sobreviver na seca

07/10/2021

A sucessão de eventos adversos no Pantanal, que sofreu incêndios devastadores em 2020, perdeu parte importante de sua superfície de água e vive seca histórica neste ano, pode estar tendo efeitos nos hábitos dos animais que vivem ali — a começar pela oferta de comida disponível a eles.
Embora estabelecer (ou não) uma relação causal direta dependa de estudos aprofundados, profissionais que atuam no Pantanal observam algumas mudanças.
"O fogo pode estar menos intenso (neste ano), mas a fome e a seca estão mais presentes", diz à BBC News Brasil Ilvanio Martins, presidente da Fundação Ecotrópica, que gerencia quatro reservas ambientais no Pantanal — uma delas praticamente inteira consumida pelas queimadas no ano passado.
"A fome não é tão escandalosa quanto o fogo, mas seu efeito é ainda mais devastador. Ela é severa e silenciosa. E afeta toda a cadeia (ecológica). A árvore que queimou não floriu; as que floriram não germinaram tantas sementes, e daí conseguem alimentar uma quantidade menor de pássaros e roedores", ele relata.
Um exemplo são as árvores de ipê, que segundo Martins são fonte de alimento aos animais. "E a florada dos ipês foi muito mais tímida neste ano."
Estão fazendo falta também muitas palmeiras que alimentavam e abrigavam araras azuis e roedores.
Segundo Jorge Salomão, veterinário da organização Ampara Animal Silvestre no Pantanal, muitos animais haviam tido sucesso em se adaptar ao ambiente após os incêndios do ano passado: se deslocando e migrando para outras áreas do bioma, eles conseguiam, de alguma forma, se alimentar.
"O que complicou muito, neste ano, foi a seca", explica o veterinário à BBC News Brasil.
"Então os animais saíram de uma situação crítica (de fogo) e emendaram na seca mais intensa dos últimos dez anos."
A seca reduz as áreas naturais disponíveis para os animais se banharem, tomarem água e se alimentarem.
Ilvanio Martins conta que, em uma de suas visitas recentes a campo, em setembro, se deparou com "animais debilitados, perambulando".
"Quando esses animais não encontram a água que antes estava ali, eles se desorientam."
Além disso, nos pontos em que a água deixou de fluir com a mesma intensidade de antes, os peixes não conseguiram se reproduzir no mesmo volume, ele explica. Portanto, deixaram de ser fonte de alimentos para as aves.
Segundo Martins, a consequência é que parte dos animais precisou mudar de hábitos para obter comida. Alguns passaram a "furtar" alimentos de cozinhas e restaurantes ou de locais dos quais antes não ousariam se aproximar.
Outros passaram a comer alimentos diferentes do que normalmente comeriam. "Vimos macacos e periquitos comendo manga verde, que não seria parte da dieta deles."
Macacos passaram, também, a estender a pata a humanos, pedindo comida — "como se fossem mendigos", diz Martins —, porque descobriram que são capazes de conseguir alimentos dessa forma.
Para o veterinário Jorge Salomão, porém, esse comportamento dos macacos vem do fato de eles terem se condicionado a contar mais com os alimentos distribuídos pelos humanos.

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