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Perfuração da Vale provavelmente causou tragédia em Brumadinho, indica estudo

07/10/2021

O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em Minas Gerais, em janeiro de 2019 provavelmente aconteceu devido a uma perfuração que estava sendo feita na represa pela mineradora no dia da tragédia — que deixou 270 mortos, sendo 9 ainda desaparecidos.
A conclusão faz parte de um estudo feito pelo Cimne (Centro Internacional de Métodos Numéricos em Engenharia), entidade vinculada à UPC (Universidade Politécninca da Catalunha). A análise foi feita a pedido do MPF-MG (Ministério Público Federal em Minas Gerais), um dos responsáveis pelo caso. O Ministério Público do estado já denunciou uma série de funcionários da mineradora pelo episódio.
Segundo o relatório dos pesquisadores, é forte a possibilidade que a perfuração tenha sido o gatilho para a tragédia ao causar a liquefação dos rejeitos da barragem.
O termo indica que um material rígido passa a se comportar como fluido e, nesse caso, foi causado por um aumento da quantidade de água em meio aos rejeitos. Com isso, houve uma expansão de todo o bloco depositado na represa, o que pressionou a estrutura, que não aguentou e cedeu.
A perfuração foi feita do topo para o fundo da barragem. Segundo a própria Vale, a ação tinha como objetivo exatamente instalar equipamentos que permitissem uma leitura mais detalhada do nível de água no interior da represa.
O estudo da UPC tem 500 páginas e descartou algumas outras possíveis causas para a tragédia, como a ocorrência de pequenos tremores de terra na região ou reflexos da atividade minerária, que utiliza explosivos para retirada do produto das minas.
Os técnicos da universidade utilizaram simulações em 2D e em 3D para chegar ao resultado final do estudo, que foi pago pela empresa e entregue ao MPF nesta segunda-feira (4).
"Foi desenvolvido um modelo numérico o mais próximo possível da realidade e as informações disponíveis da barragem foram examinadas criticamente, incluindo a história da construção da barragem, registros pluviométricos (com extensão de mais de 40 anos) e movimentações de superfície da barragem nos anos imediatamente anteriores ao rompimento", disse a Procuradoria.
O relatório apontou ainda que “a maioria dos rejeitos da barragem eram fofos, contráteis, saturados e mal drenados e, portanto, altamente suscetíveis à liquefação”.
O estudo diz que o perfil da área da barragem onde foi feita a perfuração apontada como a causa da tragédia "era especialmente desfavorável em relação ao início e propagação da liquefação".
A barragem da Vale que se rompeu em Brumadinho já não recebia rejeitos de minério de ferro há cerca de dois anos. O relatório da universidade espanhola diz que 9,7 milhões de metros cúbicos de rejeito escaparam da barragem, 75% do volume que havia antes do colapso.
A conclusão do estudo apontou que as análises realizadas permitem concluir que a perfuração "é um potencial gatilho da liquefação que ocasionou o rompimento da barragem".
Em nota, a Vale afirmou que desde o início das investigações vem colaborando com as autoridades.
"Tendo inclusive celebrado um termo de cooperação com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal para que fossem contratados peritos da Universidade Politécnica da Catalunha, na Espanha, uma das mais renomadas do mundo, a fim de analisarem o acidente ocorrido em 25 de janeiro de 2019 com a Barragem 1 em Brumadinho", disse a empresa.
O texto diz ainda que o estudo, "assim como outros já realizados, concluiu que não houve nenhum indicativo prévio à ruptura da estrutura, que se deu de forma abrupta".
Para a empresa, o estudo "também atesta que teria havido uma conjugação particularmente desfavorável de circunstâncias no momento e no local em que se fazia a perfuração do 13º poço vertical por uma empresa especializada".
A mineradora também diz que "não obstante, embora compreenda que cada autoridade que presida investigações é livre na formação de suas próprias convicções, a Vale reafirma que sempre norteou suas atividades por premissas de segurança e que nunca se evidenciou nenhum cenário de risco iminente da ruptura da estrutura, o que é confirmado em todos os laudos já expedidos".

Fonte: Folha de S. Paulo

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