
05/10/2021
Uma floresta sem antas é uma floresta que corre grande perigo de extinção. Isso não é nenhum exagero. De acordo com a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), que completa 25 anos em 2021, o ambiente de onde a espécie tenha desaparecido é “muito vulnerável e empobrecido em termos de biodiversidade”.
A maior razão para essa relação de qualidade de meio ambiente com a espécie é o fato de que a anta brasileira (Tapirus terrestris) é uma verdadeira "jardineira das florestas".
Ela percorre grandes extensões de habitat em suas áreas de uso e, por se alimentar de diversas espécies de frutos, acaba "plantando" e renovando a floresta por meio das sementes que passam por seu trato digestivo e são depositadas por suas fezes.
As pesquisas sobre a anta começaram em 1996, no Parque Estadual do Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio (SP), município do interior paulista situado na região do Pontal do Paranapanema. Ali, foram estruturadas as bases de pesquisa sobre a anta na Mata Atlântica, onde a principal ameaça para a espécie são a perda e a fragmentação de habitat.
Em 2008, a INCAB expandiu suas ações para o Pantanal de Nhecolândia, no estado de Mato Grosso do Sul, um local com menos ameaças atuantes e onde as antas encontram-se em uma condição de conservação menos ameaçado. Desde então, a Iniciativa vem coletando informações extremamente relevantes sobre a espécie, envolvendo ecologia, saúde e genética.
Entretanto, em outra localidade de Mato Grosso do Sul, na região do bioma do Cerrado, a situação é totalmente oposta e as antas lidam com muitas rodovias e colisões constantes, caça ilegal e um risco muito elevado de contaminação por agrotóxicos em função da expansão da agropecuária em larga escala. Assim, em 2015, a INCAB também ampliou seus esforços de pesquisa para essa porção do bioma.
“A anta é a jardineira das nossas florestas e exerce um papel crítico para a conservação das mesmas. Adicionalmente, é uma verdadeira heroína, lutando para sobreviver em áreas extremamente degradadas. A espécie ainda persiste nessas paisagens antropizadas, mas seu papel na renovação florestal e manutenção da biodiversidade vem sendo bastante comprometido”, explica Patrícia Medici, coordenadora da INCAB-IPÊ.
Os programas de pesquisa nos diferentes biomas são o instrumento inicial e de base para que a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira do IPÊ busque a efetiva conservação desta verdadeira heroína das florestas.
Com dados e resultados bastante substanciais (e, muitas vezes, alarmantes), a iniciativa busca influenciar o processo de tomada de decisões junto ao poder público para combater as ameaças atuantes e, claro, evitar a extinção da anta e de seus habitats remanescentes.
Um exemplo foi a abertura de inquéritos civis e ações civis públicas junto aos Ministérios Públicos Estadual e Federal com o objetivo de solicitar a urgente tomada de medidas para o enfrentamento dos atropelamentos e mortes de antas (e seres humanos) nas estradas de Mato Grosso do Sul.
Em março de 2020, a INCAB concluiu seis anos de monitoramento de atropelamentos de antas nas rodovias sul-mato-grossenses. Desde 2013, 34 rodovias federais e as estaduais foram meticulosamente monitoradas, com o registro de mais de 600 carcaças de antas. No mesmo período, 77 pessoas ficaram feridas e 34 vieram a óbito por causa de colisões veiculares com antas nas rodovias estaduais e federais em MS.
Recentemente, a INCAB-IPÊ lançou um relatório bastante preocupante sobre os efeitos dos agrotóxicos utilizados na agropecuária no Cerrado na saúde das antas. Até mesmo anomalias físicas foram encontradas nos animais capturados e amostrados. Efeitos negativos dos agrotóxicos nos animais alertam também para a saúde humana. O estudo foi também publicado em uma revista científica internacional.
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