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Desequilíbrios ecológicos podem causar epidemias

05/10/2021

Na década de 1950, a Bolívia passava por um período de extrema instabilidade política. Na vila de San Joaquín, que antes tinha toda sua economia centralizada na pecuária, a população viu-se, de repente, sem meio de subsistência.
No desespero da fome, os moradores desmataram grandes áreas de floresta para plantar milho. Ratos silvestres, privados de seu habitat e atraídos pela disponibilidade do milho, invadiram as zonas urbanizadas, e adaptaram-se muito bem. Mas esses roedores da floresta eram reservatórios de um vírus que causava, em humanos, uma febre hemorrágica mortal: a febre Machupo.
Naquela época, usava-se DDT em abundância para matar mosquitos, que também transmitem doenças. Mas o DDT matou junto grande parte dos gatos domésticos, o que facilitou ainda mais a disseminação dos ratos. Fatores culturais também influíram: a maioria das moradias tinha chão de terra batida. Os animais urinavam na terra, os moradores varriam o chão de terra, espalhando partículas virais, vindas da urina de rato, pelo ar.
Na Argentina, no período pós-guerra, algo semelhante desencadeou uma epidemia de vírus Junin, um parente do Machupo, também transmitido por roedores e que também causava uma febre hemorrágica. Neste caso, foi o uso de herbicidas que eliminavam somente um tipo de erva daninha, uma gramínea que danificava a plantação. O uso do herbicida funcionou e aumentou o rendimento das colheitas, mas não eliminou uma outra espécie de gramínea mais alta, cujas sementes serviam, justamente, de alimento para o animal transmissor do vírus Junin. Sem ter de competir com a outra erva, eliminada pelo agrotóxico, na disputa por espaço e nutrientes, essa “comida de rato” proliferou, e com ela, a população de animais vetores da doença.
Recentemente, aqui no Brasil, na cidade paulista de Ribeirão Preto, práticas de agricultura não sustentável, aliadas a secas prolongadas e queimadas, com a ajuda de ventos fortes, causaram uma tempestade de poeira. Isso foi resultado de um solo erodido e danificado, deixado ocioso, no período de seca, aguardando a época de chuvas. Isso tudo, numa área com pouquíssima cobertura florestal, por conta do desmatamento.
Só o desastre ecológico de ter uma cidade coberta por uma nuvem de poeira já merece preocupação. Sem falar nos danos à saúde respiratória dos habitantes. Mas a história nos mostra que esse tipo de desequilíbrio, trazido pela ausência de boas práticas de manejo da terra pode trazer, além de poluição, doenças infecciosas graves.
Será que não é hora de revermos nossas prioridades na interação com o ambiente? Investir em vigilância genômica para monitorar possíveis vírus com potencial pandêmico é certamente necessário. Mas, e quanto a mudar a maneira como exploramos os recursos do planeta? Se continuarmos a fazer isso de modo predatório, quantos outros vírus, hoje guardados em reservatórios silvestres, iremos liberar? E apenas monitorá-los será o suficiente?
A epidemia de Machupo foi controlada com ratoeiras, gatos e um trabalho de conscientização ambiental. A Covid-19 está sendo controlada com vacinas, mas sem muita atenção para a necessidade de mudarmos nossas práticas de agricultura, criação animal, e talvez até, para o longo prazo, alguns hábitos culturais e alimentares.
O fato é que medidas corretivas, como medicamentos e vacinas, são necessários e refletem nossa capacidade de desenvolver ciência e tecnologia. Mas, se não investirmos em estratégias preventivas, estaremos sempre correndo atrás do prejuízo.
A história das epidemias de febre hemorrágica na Bolívia e na Argentina podem ser lidas com mais riqueza de detalhes no livro “A próxima peste”, de Laurie Garrett.

Fonte: O Globo

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