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Refugiados ambientais: secas, tempestades e enchentes multiplicam migrações no país

14/09/2021

Quando o agricultor Raimundo Lima, de 55 anos, era criança, seu padrinho marcava em um tronco o nível da cheia do Rio Juruá, no interior do Amazonas. Uma enchente do ano de 1988 tinha, até agora, a marca mais alta. Este ano, o rio ultrapassou tanto o ponto mais alto que Lima e a família tiveram de se mudar para não serem engolidos pela água.
— Nos virávamos com a casa dentro d’água, graças às marombas (assoalhos de madeira elevados para as famílias se abrigarem). Mas essa cheia cobriu tudo e nos obrigou a sair — conta ele, que se mudou para outra casa no interior do estado.
A comunidade de Botafogo, onde Raimundo nasceu e cresceu, na Reserva Extrativista do Baixo Juruá, surgiu no ciclo da borracha. Hoje a renda vem dos cultivos de banana e mandioca. Mas a natureza, diz, está mudando. Vários municípios do Amazonas registraram recordes de cheias.
— Todo ano enchia, mas depois baixava. A mão do homem influencia. Tem o desmatamento, os grandes latifundiários, as criações de gado em áreas cada vez maiores. Até o sol parece mais quente — afirma.
Integrante da Associação dos Trabalhadores Rurais do Juruá, Raimundo é também um refugiado ambiental. O termo se refere às pessoas levadas a abandonar seus locais de origem, pressionadas por causas ambientais.
No ano passado, eventos climáticos agravados pela ação humana foram a maior causa de deslocamentos no mundo. Em 2020, enchentes, tempestades ou secas tiraram as pessoas de suas casas 30,7 milhões vezes, segundo o Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC, na sigla em inglês). Três anos antes, foram registrados 18,8 milhões de deslocamentos internos devido a desastres naturais.
O Brasil, indica o IDMC, somou 358 mil novos deslocamentos no ano passado. A maioria fugiu dos estragos deixados pelas tempestades do início de 2020 no Sudeste.
— O grupo aumenta quanto mais se agravam a crise econômica e os eventos climáticos extremos — diz o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo e do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, o IPCC.
Apresentado em agosto, o mais recente relatório do IPCC aponta para a possibilidade de eventos climáticos extremos se tornarem mais frequentes, caso nada seja feito para evitá-los. No capítulo sobre o Brasil, o documento prevê secas prolongadas no Nordeste e mudanças no regime de chuvas na Amazônia. Embora não haja um estudo específico sobre o impacto no número de refugiados climáticos no país, especialistas alertam que ele deve crescer. Um estudo publicado na revista Science em dezembro de 2017 previa que, mantidas as condições climáticas atuais, o número de refugiados do clima na Europa, por exemplo, deve aumentar 30% até o fim do século.
— São pessoas completamente invisíveis. E não há programa social do governo estruturado para lidar com essa questão — afirma Artaxo, em relação aos refugiados ambientais. — O Nordeste brasileiro é o exemplo mais claro. As pessoas saem não porque querem enriquecer no Sul maravilha, mas porque não têm condições de sobreviver onde estão.
A baiana Lourdes Nascimento, de 57 anos, deixou o distrito de Pedro Alexandre, na divisa com Sergipe, por causa da seca.
— Cresci vendo minha família passar necessidade pela falta de água. Era pegar água de balde bem longe ou contar com a bondade de alguém que nos deixasse pegar água no açude de sua propriedade para tomar banho ou beber. Estávamos abandonados de política pública, de tudo — lembra.
Com 13 anos, convenceu a mãe e os quatro irmãos a saírem dali. Em Alagoas, Lourdes trabalhou de doméstica. Depois se fixou em Porteirinha, no norte de Minas Gerais, e ali mergulhou nos cultivos da terra.
— Eu ficava até três anos sem ver pingar no chão. Quando cheguei a Minas, dava para cavar perto de um córrego e achar água. Com água assim, não se fica pobre — diz ela, hoje uma das líderes da agricultura familiar em sua região.
Em 35 anos, a caatinga perdeu 17,5% da superfície de água, segundo o MapBiomas. O aumento da temperatura global deve prolongar as estiagens no semiárido brasileiro, de acordo com o IPCC, e elevar o nível do mar, inundando cidades litorâneas, em outras regiões.
Foi a escassez hídrica que levou Dioclécio Mendonça, de 28 anos, a deixar a comunidade indígena de Santa Terezinha, do povo Mendonça Potiguara, em João Câmara, no Rio Grande do Norte.
— Quando eu era criança, pescava nos açudes. Mas a cada dia tem menos água. As secas duram mais. E já não chove o suficiente para encher os reservatórios.
Nas fases mais críticas, os moradores da comunidade de 1.100 pessoas buscam oportunidades fora. Quando chove, voltam para os plantios. Dioclécio voltou da capital, Natal, para ficar. Hoje é o cacique e luta pelo direito à água.
— Não saio mais porque agora sou o elo de fortalecimento entre a comunidade e as políticas públicas. É preciso resolver a questão da água. O território é a minha identidade — afirma.
Embora os eventos climáticos extremos sejam observados em todo o planeta, seus efeitos reforçam desigualdades. Eles atingem, principalmente, as populações mais vulneráveis.
— Quem gera menos resíduos, utiliza menos recursos naturais e emite menos carbono paga a conta — diz Gustavo Ferroni, coordenador de Setor Privado e Direitos Humanos da Oxfam Brasil.
São pessoas de baixa renda, explica, sem acesso a alternativas econômicas, políticas públicas ou tecnologias de adaptação que permitam permanecer em suas regiões ou se recuperar das crises ambientais agravadas pelo homem. Daí elas migram.
— Sem atenção do setor público e do setor privado, elas acabam desistindo do meio de vida que exerciam tradicionalmente e vão para outras cidades do país trabalhar com menos saúde e em posições subalternas e precarizadas — afirma.
Criado às margens do Rio São Lamberto, em Montes Claros, no Norte de Minas, Braulino Caetano dos Santos, de 75 anos, resiste no pedaço de terra conhecido como “caixa d’água do Brasil”. Em 30 anos, as queimadas atingiram 36% da área, e a derrubada de vegetação comprometeu as chuvas e os rios.
— Tinha muita hortaliça, mas hoje falta água até para plantar pé de alface — conta o agricultor, diretor e sócio-fundador do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM).
O poço artesiano que abastece a propriedade de Braulino está quase seco.
— O campo está esvaziando. Minha esposa foi professora rural, chegou a dar aula em sala com 90 alunos. Mas a crise hídrica está violenta. E a juventude está indo embora — conta Braulino.
O vilão, diz, é o agronegócio, “o mesmo que está acabando com a Amazônia”.
— O culpado é o homem. Ele foi destruindo tudo. As grandes empresas que chegaram, o reflorestador que começou uma monocultura, o gado, a mineradora. As áreas de reserva foram acabando. E quem ficou na terra está pagando por isso — diz Braulino.
Com quatro filhos, seis netos e uma bisneta, ele diz que não sai mais do Cerrado. Mas se preocupa pela família:
— Se o poço secar, onde vão buscar água, vão viver de quê? Vão ter que ir embora. A tendência é tudo virar deserto.
A partida, porém, muitas vezes é só o início de outro problema. Não há estrutura nos locais de chegada para receber essas populações.
— Isso não existe. O planeta inteiro ainda vai ter que se preparar com planos concretos de contingência para lidar com os refugiados ambientais — diz o físico Paulo Artaxo.
Tampouco há planejamento no Brasil, aponta, onde os maiores desafios serão as migrações forçadas por questões climáticas de pessoas do Nordeste e do Centro-Oeste do país. Essas são as regiões que, segundo o relatório do IPCC, mais sofrerão aceleração da desertificação com o prolongamento de secas e da escassez hídrica derivadas do aumento da temperatura global e da interferência humana.
Na outra ponta, as principais cidades de chegada, do Sudeste e do Sul, já encaram problemas econômicos e seus próprios desafios climáticos, entre eles previsões de enchentes mais intensas.
— A população do Nordeste também pode ir para as cidades da costa. Elas precisam se preparar — acrescenta Artaxo, lembrando que esses locais também enfrentarão mais erosão costeira pelo aumento do nível do mar em virtude do derretimento das geleiras.
Para o especialista, não existe saída sem ação nos locais de origem e de destino:
— Serão necessários programas sociais de apoio a esses trabalhadores rurais, maioria das pessoas deslocadas. Vai ser difícil eles acharem empregos formais nas grandes cidades.

Fonte: O Globo

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