
09/09/2021
O Rio Madeira abriga 40% de todas as espécies de peixes da bacia amazônica — são mais de 1,2 mil. Todos os rios de Rondônia, em algum momento, desaguam no Madeira e as modificações nos ambientes ao redor dos rios são as principais causas que levam ao risco de extinção dos organismos.
Um exemplo disso é a nova espécie Moenkhausia (Characiformes: Characidae), popularmente conhecida como lambari. Ela foi catalogada por pesquisadores de Rondônia, Paraíba e Mato Grosso do Sul, em estudo publicado pela revista Neotropical Ichthyology, da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI), em março deste ano.
Recém descoberta, ela é considerada quase ameaçada devido à distribuição geográfica restrita e ao declínio contínuo da qualidade do habitat.
Segundo o pesquisador rondoniense, Willian Massaharu Ohara, que também assina o artigo publicado pela SBI, durante o período de coleta, a espécie Moenkhausia foi procurada pela equipe em vários riachos do sul de Rondônia e até no estado vizinho, Mato Grosso, mas só foi encontrada em dois rios de Vilhena (RO), sendo que um deles está rodeado por fazendas agropecuárias e o outro prejudicado por resíduos de lixo que caem no local devido a falta de saneamento. Esses fatores podem levar a espécie, em um futuro próximo, à extinção.
"A modificação do ambiente é um dos principais motivos que levam a extinção de uma espécie. Em Rondônia nos últimos 50 anos estão transformando a floresta em sistemas de produção. Estão transformando os riachos em lagoas, seja para implantação de usinas ou ocupação de gado próximo. Estudos mostram que as principais ameaças quase sempre são a substituição da floresta original por sistemas de produção, aí entra a pecuária, agricultura e até psicultura", comenta o pesquisador.
Os especialistas em ictiologia garantem que a terra influencia o que está na água, o uso do solo mexe diretamente com os peixes. O desmatamento feito em áreas próximas aos rios, pode gerar erosão e grande poluição às águas.
Além disso, em alguns locais do estado, como próximo dos municípios de Ariquemes e Campo Novo de Rondônia, que sofreram com garimpos "a céu aberto" durante exploração de ouro e cassiterita, tiveram o sumiço de espécies de peixes, de acordo com os pesquisadores.
Mesmo assim, a natureza resiste. Rondônia é habitat para diferentes espécies em seus rios que cortam a Floresta Amazônica e o cerrado, contribuindo para diferentes grupos de peixes, como o peixe-faca, também catalogado em março deste ano pelo jornal acadêmico Systematics and Biodiversity. Ele pertence à mesma ordem de peixe que produz eletricidade.
"É um tipo de peixe elétrico, pertence à mesma ordem, mas esse não dá choque. E ele não é totalmente cego, enxerga, mas não muito bem. Por ter hábitos noturnos usa esses campos elétricos justamente para nadar bem. Quando esses campos batem em alguma estrutura e voltam para ele, o peixe consegue mapear o rio através desse campo elétrico", comenta o pesquisador Willian Ohara, que também trabalhou na descrição dessa nova espécie.
A primeira captura desse tipo de peixe-faca foi em 2014, mas a catalogação só aconteceu em 2021, já que o processo de coleta até a publicação e descrição em revista científica demora, principalmente nesse caso onde foi feito o estudo de taxonomia integrativa, para comprovar que esse indivíduo é uma espécie nova.
As diferenças dessa para outras já catalogadas estão na coloração e ausência de um osso posterior.
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