
26/08/2021
É uma visão chocante — e um tanto quanto chamativa — em uma montanha.
Se você caminhar em uma altitude elevada o suficiente nos Alpes franceses durante o fim da primavera e o início do verão, há uma boa chance de se deparar com alguns trechos de neve bastante inusitados.
Uma neve que não é branca — mas vermelho sangue.
O fenômeno peculiar — às vezes chamado de "neve de sangue" — é resultado de um mecanismo de defesa produzido por algas microscópicas que crescem na neve dos Alpes.
Normalmente, essas microalgas possuem uma coloração verde, pois contêm clorofila, a família de pigmentos produzida pela maioria das plantas para ajudá-las a absorver a energia da luz do Sol.
Mas, quando as algas da neve crescem prolificamente e são expostas à forte radiação solar, elas produzem moléculas de pigmento de coloração vermelha, conhecidas como carotenoides, que atuam como um protetor solar para resguardar a clorofila.
Embora as algas vermelhas da neve sejam conhecidas há muito tempo (elas foram mencionadas em um livro publicado em 1819, como tendo sido descobertas durante uma expedição ao Ártico em 1818), ainda são repletas de mistérios que os cientistas estão tentando desvendar.
Há apenas dois anos, botânicos da Charles University, em Praga, na República Tcheca, identificaram um gênero inteiramente novo de microalgas que é responsável pela neve vermelha e laranja em diferentes partes do mundo — a qual chamaram de Sanguina, em referência à cor vermelho-sangue que produzem.
Os pesquisadores encontraram tipos de alga Sanguina que tingem a neve de vermelho na Europa, na América do Norte, na América do Sul e em ambas as regiões polares.
Uma espécie de Sanguina que gera uma neve laranja incomum também foi encontrada em Svalbard, no ártico norueguês.
Mas ela não é o único tipo de microalga responsável pela neve vermelha. Vários outros tipos, como a Chlamydomonas nivalis e uma alga encontrada perto de colônias de pinguins da Antártida, chamada Chloromonas polyptera, também produzem pigmentos que mancham a neve de vermelho e rosa.
Entender mais sobre as algas da neve vermelha tem, no entanto, um significado bem mais amplo do que simplesmente explicar a existência de manchas de cores inusitadas nos Alpes e perto dos Polos.
Seu surgimento e desaparecimento são indicadores importantes da mudança climática — e de como a mesma está afetando os delicados ecossistemas em que as algas são encontradas.
De acordo com Liane G Benning, professora de geoquímica de interface do Centro Alemão de Pesquisa em Geociências de Potsdam, a neve vermelha está se tornando mais comum devido ao aquecimento global.
"O aumento nos níveis de dióxido de carbono atmosférico eleva a temperatura, o que leva a um derretimento maior da neve", diz ela.
"No momento em que há água líquida na neve, as algas começam a crescer."
Essa proliferação cada vez maior de algas de neve vermelha também pode estar contribuindo, por sua vez, para a mudança climática.
O pigmento vermelho escurece a superfície da neve, reduzindo a quantidade de luz e calor que a mesma reflete de volta para o espaço — algo conhecido como efeito albedo.
Ao reter mais calor do Sol, a neve derrete ainda mais rapidamente, permitindo que as algas se proliferem ainda mais.
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