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Seca, geada e baixa umidade aumentam risco de queimadas no Sul e Sudeste do país

19/08/2021

Seca, geada, altas temperaturas e baixa umidade do ar aumentaram o risco de queimadas no Sudeste e Sul do país. Em Minas Gerais, os focos de queimada de janeiro a agosto já são mais que o dobro de igual período de 2020. Em São Paulo, estão bem próximos - alcançam 97,5%. Além do forte calor que se seguiu às geadas de julho, a umidade do ar está extremamente baixa, em nível de alerta, em vários munícipios.
O município de Morro Agudo, na região de Ribeirão Preto (SP), está coberto de fumaça desde segunda-feira, quando teve início um incêndio de grandes proporções em fazendas e sítios da cidade. O fogo só foi debelado na manhã desta quarta-feira e os brigadistas seguem em alerta para evitar o surgimento de novos focos. Agosto costuma ser o mês mais seco em São Paulo e há pelo menos 30 dias não há chuva significativa na região.
A estimativa é que cerca de 30 mil hectares de plantação de cana de açúcar e pastos tenham sido destruídos em Morro Agudo até a noite de terça-feira. Usinas como Santa Elisa, Vale do Rosário e Bazan, além de proprietários rurais, mobilizaram cerca de 70 caminhões-pipa para conter o fogo, que chegou a atingir a sede de algumas propriedades rurais.
— O fogo tomou uma proporção inimaginável. Nunca tivemos algo desta magnitude — afirma Fernando Cardoso, coordenador ambiental da Prefeitura de Morro Agudo.
Segundo ele, a seca e a geada deixaram a vegetação nativa e as plantações queimadas e o vento aumentou ainda mais a propagação do fogo. Segundo dados da Climatempo, a umidade relativa do ar na região de Ribeirão Preto na terça-feira baixou a 24% e a temperatura atingiu 33°C. Os municípios de Presidente Prudente, Valparaíso (região de Araçatuba) e Paulo de Faria (norte do estado, no limite com Minas Gerais) entraram em estado de alerta, com umidade do ar de 13% e temperaturas entre 35°C e 37°C.
— Foi muito difícil dormir na cidade devido à quantidade de fumaça — diz Cardoso.
Cardoso afirma que ainda não é possível saber como o fogo começou, se por descuido ou intencional. Um helicóptero Águia da PM sobrevoou a região medir a área atingida, com apoio do Corpo de Bombeiros de Orlândia.
Segundo Tirso Meirelles, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), os 236 sindicatos rurais do estado e os proprietários estão mobilizados para evitar que as queimadas atinjam a mesma proporção do ano passado. O esforço, porém, pode ser em vão. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de janeiro até ontem (quarta-feira) foram registrados em São Paulo 2.150 focos de queimada. No mesmo período do ano passado foram 2.205.
Num trabalho conjunto com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, está sendo feita campanha nos pedágios para que motoristas não joguem cigarros à beira das estradas e não soltem balões. As fazendas estão retirando mato com trator na beira das rodovias para tentar formar um bloqueio para o fogo.
Meirelles conta que os pastos, que costumam ser usados até o começo de setembro pelos bois, este ano secaram antes. Os pecuaristas já estão usando ração ou silagem (feito com milho e serragem e depositado em buracos nas fazendas, cobertos por plástico) na alimentação do rebanho.
— A seca e as geadas atingiram praticamente todo o estado e o risco de incêndios é alto — diz ele.
A situação também é de risco em Minas Gerais. Segundo dados do Inpe, a situação é dramática no estado. De janeiro até ontem o estado já registra 3.518 focos de queimada. É mais que o dobro de 2020. No mesmo período do ano passado foram 1.853 registros pelos satélites do Inpe.
Pedro Aihara, porta-voz do Corpo de Bombeiros, afirma que o pior mês de queimadas no estado é setembro e tudo indica que elas serão maiores do que no ano passado. Apenas em julho passado os bombeiros receberam 4.326 chamadas. No último fim de semana, foram 162 ocorrências apenas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
No ano passado as queimadas atingiram grandes áreas, como Parque Nacional Serra do Cipó, que fica no município de Santana do Riacho, na Região Central de Minas Gerais. Neste ano, segundo Aihara, as ocorrências estão mais dispersas. Ou seja, tem mais incêndios, mas eles atingem até agora áreas menores do que em 2020.
— A pior época de queimadas ainda não chegou. Este ano temos uma combinação de fatores. O ciclo de chuvas foi menos intenso e a vegetação está mais seca. A temperatura está alta e a umidade do ar, baixa. Mesmo focos pequenos se propagam rápido em Minas devido às montanhas, que formam corredores de vento que alimentam a combustão — explica o tenente Aihara.
Os riscos de queimadas são maiores em regiões tradicionalmente mais secas, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha. No Triângulo Mineiro, onde predomina a plantação de cana, os termômetros chegaram terça-feira a 32,7°C, com umidade do ar em torno de 21% e 24%.
Aihara afirma que as pessoas acham que uma área se recuperou quando volta a nascer vegetação e ficar verde, mas não é isso que acontece.
— No lugar da mata nativa nasce uma vegetação invasora e o incremento dela cria material com mais carga de combustão. Devemos atingir o ápice este ano. Depois naturalmente diminuem as queimadas, já que não haverá mais muito o que queimar — explica.
Segundo Aihara, 99% dos casos são fruto da ação humana. As pessoas colocam fogo para limpar pastagens ou queimar lixos e acabam perdendo o controle.
— É preciso conscientizar as pessoas. Isso piora o abastecimento de água, a qualidade do ar e gera o efeito estufa. As queimadas parecem ser algo distante da realidade das pessoas, mas o efeito delas ocorre no nosso dia a dia — diz ele.
No Rio de Janeiro, seis municípios apresentavam o mais alto risco de incêndios nesta quarta-feira, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet): Cambuci, Carmo, Valença, Resende, Saquarema e Duque de Caxias - este último em Xerém. Eles estão no nível "perigosíssimo" - o mais alto grau; São cinco patamares: perigosíssimo, grande, médio, fraco e nenhum. O índice de risco de incêndios (ìndice de Nesterov) foi desenvolvido na Rússia, aperfeiçoado na Polônia e calcula a possibilidade de um incêndio com base nas condições de umidade, temperatura, ponto de condensação e vento.
No Paraná, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) aponta alto risco de incêndios na região de Londrina e Marechal Cândido Rondon. Segundo Fábio Luengo, meteorologista da Climatempo, a situação é de temperatura alta e tempo seco no Norte e Noroeste do estado.
— O município Marechal Cândido Rondon teve na terça-feira a menor taxa de umidade do ar do Paraná, com apenas 16%, e a temperatura chegou a 35°C. É muito calor e ar seco, o que agrava a situação — diz Luengo.
Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica, afirma que fenômenos climáticos, como secas e frio intenso, cada vez mais extremos e frequentes, como prevê o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, se retroalimentam, agravando os prejuízos.
A SOS Mata Atlântica perdeu entre 50% e 80% de mudas plantadas para restauração do bioma. Elas foram queimadas não pelo fogo, mas pelas geadas de julho.
— Tivemos geada e, depois dela, a seca segue muito forte. Se chovesse haveria mais esperança de rebrota das mudas, mas é improvável que isso aconteça — diz Guedes.
Ele lembra que quanto mais se desmata, maiores as consequências para a agricultura. No bioma Mata Atlântica pelo menos 4 milhões de hectares de áreas de preservação permanente precisam ser recuperados.
— Quanto mais se desmata, mais alimenta o monstro da mudança climática. Para a agricultura, é um tiro no pé — diz ele.

Fonte: O Globo

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