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A preciosa relação entre amor e clima

19/08/2021

A agenda climática tem tudo a ver com afetos, na medida em que pressupõe a preocupação com as próximas gerações: entregar um mundo melhor do que o que recebemos. É uma visão que mira o longo prazo e não cabe na estreiteza de políticos apegados ao período de seus mandatos e em atender ao interesse privado de alguns grupos econômicos.
Mais do que nunca, precisamos da grande política, de visão de longo prazo, e a pandemia é prova disso. As lideranças atuais resistem em olhar para além de suas fronteiras físicas, quando o enfrentamento da crise climática —como a sanitária— exige soluções locais e globais integradas.
O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), da ONU, divulgou, na semana passada, o sexto relatório do clima. No documento, acrescenta mais uma camada de preocupação em relação ao limite de emissões de gases de efeito estufa e aciona alertas para a sociedade, empresas e governos: o tempo está passando e as respostas estão aquém das necessidades para zerarmos as emissões até a metade do século.
Para tanto, são necessárias medidas que enfrentem determinados segmentos econômicos, mas a maioria dos países está amarrada a um modelo de desenvolvimento baseado nos combustíveis fósseis e resistem em promover uma transição energética na velocidade exigida pela ciência.
O que pressupõe uma coragem não habitual das lideranças políticas para enfrentar os interesses econômicos da indústria do petróleo, do agronegócio, da pecuária, do garimpo, dos madeireiros, entre outras. Mas, se não avançarmos nessa direção, chegaremos a um grau de desequilíbrio e de imprevisibilidade no planeta em que todos os negócios serão fortemente atingidos: um típico caso de miopia aguda, lamentavelmente ainda presente em boa parte das lideranças políticas e empresariais.
O risco é de que a temperatura do planeta aumente mais do que 2 °C, o que provocará um número cada vez maior de eventos extremos —secas, inundações, tufões, aumento do nível dos mares, mudança no regime de chuvas—, afetando a produção de alimentos e gerando crise hídrica e desequilibrando todo o sistema. Muitos desses problemas já estão ocorrendo, como uma amostra do que está por vir.
O mês de julho mais quente da história acaba de ocorrer. As impressionantes temperaturas de 49°C em Lytton, no Canadá, a mais alta de todos os tempos na região, e as enchentes na China, na Alemanha e na Bélgica são somente os mais recentes recordes, que teimam serem batidos a cada ano. A média anual é de 22,5 milhões de pessoas deslocadas por eventos climáticos desde 2008 e a ONU prevê que o número de deslocados pelo clima chegue a 200 milhões de pessoas em 2050. Esses fatos e projeções não deixam dúvidas quanto à gravidade do problema.
O Brasil não está cumprindo as metas com as quais se comprometeu voluntariamente no Acordo de Paris. O desmatamento é recorde e crescente nos últimos anos, na contramão das metas assumidas. Nesse contexto, as cidades têm um importante papel, sobretudo porque, no Brasil, 85% das pessoas vivem nas áreas urbanas.
Tornar as cidades sustentáveis tem a ver com uma política urbana que gere habitação digna para todos; acesso universal à água e esgotamento sanitário; acesso à saúde e à educação pública de qualidade; modais de transportes de baixa emissão; e redução das desigualdades.
O ex-secretário-geral da ONU Ban Ki Moon disse, no lançamento da Agenda 2030, que será nas cidades que vamos perder ou ganhar a batalha do desenvolvimento sustentável.
O relatório do IPCC diz que ainda dá tempo, mas é preciso lideranças com um forte grau de envolvimento com o tema e a criação de políticas públicas que apontem a transição para um modelo de desenvolvimento sustentável.

Para terminar de ler esta reportagem acesse a Folha de S. Paulo

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