
13/08/2021
Se não forem limitadas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) nos próximos anos, o aquecimento global, que pode atingir ou exceder 1,5 ºC até 2030, deverá causar o aumento generalizado da temperatura em todo o Brasil, além de diferentes impactos regionais.
Algumas partes do território, como o Centro-Oeste, deverão registrar maior aumento na temperatura e elevação da frequência e da intensidade das ondas de calor, além de períodos secos mais prolongados, a exemplo do leste da Amazônia e da região Nordeste.
Já no Centro-Sul do país devem ocorrer mais chuvas fortes e com grandes volumes de água, concentradas em até cinco dias.
As projeções constam no novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas Globais (IPCC), lançado segunda-feira (09/08).
Algumas estimativas regionais contidas na publicação foram apresentadas em um webinário realizado por cientistas ligados ao Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) no mesmo dia do lançamento do relatório, com o objetivo de discutir as implicações do informe para o Brasil.
“A temperatura média global é distribuída geograficamente. Por isso, não é sentida da mesma forma em diferentes regiões do planeta”, disse Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e membro da coordenação do PFPMCG.
Em um cenário de aquecimento de 2 ºC, a temperatura no Brasil pode aumentar entre 3 ºC e 3,5 ºC. Já se a média global aumentar em 4 ºC, a do país pode subir entre 5 ºC e 5,5 ºC, principalmente na porção central, apontou Artaxo.
“Isso desencadearia impactos importantes, inclusive para a economia brasileira, baseada no agronegócio”, afirmou o pesquisador, que é autor-líder do capítulo 6 do relatório.
Segundo os autores da publicação, em razão do aumento das emissões de GEE, nos últimos 50 anos, a temperatura da superfície global se elevou a uma taxa sem precedentes e é muito provável que a década mais recente tenha sido a mais quente desde o pico do último período interglacial, há 125 mil anos.
A temperatura da superfície global foi 1,1 ºC mais alta entre 2011 e 2020 do que entre 1850 e 1900, com aquecimento mais forte sobre a terra do que sobre os oceanos.
A temperatura média nos continentes, contudo, já aumentou 1,6 ºC, uma vez que eles aquecem muito mais do que o planeta como um todo porque os oceanos absorvem gigantescas quantidades de calor.
“Nos continentes, já ultrapassamos o limiar de aquecimento de 1,5 ºC”, afirmou Artaxo.
De acordo com o relatório, é provável que as emissões de gases de efeito estufa – principalmente gás carbônico (CO2) e metano – tenham contribuído para esse aquecimento de 1,1 ºC da temperatura da superfície global. Em contrapartida, as partículas de aerossóis atmosféricos gerados pela poluição podem estar contribuindo com um resfriamento de 0,5 ºC da temperatura do planeta.
“Os aerossóis estão mascarando cerca de um terço do aquecimento atual”, afirmou Artaxo.
Se essas partículas, que espalham radiação de volta para o espaço ajudando a resfriar o planeta, forem retiradas da atmosfera por meio da interrupção da queima de carvão para geração de energia pelas usinas termelétricas e da eletrificação do setor de transporte – o que já está ocorrendo em países como a China e Índia –, esse mascaramento deixará de existir, indicou o pesquisador.
“Só com isso a temperatura do planeta vai aquecer meio grau nas próximas décadas”, explicou Artaxo, que é um dos maiores especialistas mundiais no estudo de aerossóis.
De acordo com o relatório, a chuva nos continentes aumentou globalmente desde 1950, mas algumas regiões registraram – e devem sofrer ainda mais – uma significativa redução de precipitação.
Os cenários regionais indicam que acontecerão no Brasil alterações no padrão das chuvas, essenciais para a agricultura e para geração de energia hidrelétrica.
A matéria completa pode ser lida na Agência Fapesp
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