
29/07/2021
Enquanto os aviões que cruzam os continentes são monitorados de perto, os navios deixam os portos e navegam pelos mares muitas vezes sem dar satisfações sobre suas rotas e intenções. Isso abre margem para a prática de vários crimes em alto mar, como pesca predatória, trabalho análogo à escravidão e tráfico de armas, avalia o jornalista Ian Urbina.
“Um Boeing 747 não pode ficar vagando pelo mundo sem rumo, mas navios sim. E eles podem levar cargas ilegais, armas e desrespeitar regras trabalhistas sem serem incomodados”, comenta Urbina à Folha.
Urbina, 49, é jornalista americano e autor de “Oceano sem Lei”, livro que reúne histórias apuradas ao longo de três anos de viagens por alto-mar. Na obra, ele mostra como os oceanos, embora ocupem dois terços da superfície terrestre, são pouco vigiados, tanto por governos quanto pela imprensa.
Para ele, a diferença de controle entre a aviação e a navegação ocorre por conta dos ataques de 11 de setembro. “Se tivessem usado um navio enorme para atacar Manhattan ou Los Angeles, o controle sobre as embarcações seria muito maior hoje”.
O livro começa com a história da perseguição a um enorme pesqueiro ilegal, que embora estivesse na lista de captura da Interpol, seguia lançando redes nas águas da Antártida. Coube a uma ONG ambientalista ir caçá-lo e seguí-lo durante meses, para tentar criar um flagrante. A embarcação trocava de nome, de bandeira e de dono com frequência, para despistar investigadores e driblar as leis.
Ganhador de um prêmio Pulitzer e colaborador do jornal The New York Times, o autor descreve em detalhes o funcionamento de embarcações que atuam em águas internacionais, colocando redes de pesca gigantescas, com vários quilômetros de extensão, capazes de arrastar junto muitos animais além dos peixes que eram o alvo original. Essa atuação predatória afeta o planeta como um todo.
“Os oceanos são como um pulmão da Terra, que produzem e limpam 50% do ar que respiramos, e isso só ocorre porque há diversidade de vida neles. Se os oceanos morrerem e se tornarem como um deserto, sem peixes, algas e corais, eles não vão mais poder funcionar como um sugador de carbono”, alerta.
Assim como as espécies, os trabalhadores marinhos também estão ameaçados. O livro relata jornadas de funcionários que trabalham em condições próximas à escravidão. Muitos deles são aliciados em países pobres do Sudeste Asiático e acabam passando meses no mar, trabalhando longas horas em funções perigosas, como puxar as enormes redes das águas.
Em muitos casos, os barcos de pesca e seus trabalhadores ficam vagando no mar por longos períodos, e outras embarcações vão até eles para recolher os peixes capturados e deixar suprimentos. Parte dos marinheiros vem de áreas rurais, e são forçados a trabalhar para pagar dívidas com aliciadores e donos dos barcos, que nunca se encerram.
No ano passado, com a pandemia de Covid, a situação dos marinheiros ficou mais complicada. No começo da crise, muitos países fecharam seus portos e deixaram a tripulação dos barcos sem poder voltar para casa, conta Urbina. Nos meses seguintes, muitas empresas donas dos navios faliram, e tripulações ficaram sem ter de quem cobrar salários atrasados ou pedir ajuda para voltar para casa. O problema segue presente.
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