
13/07/2021
Assim como pacas, tatus e capivaras, o ser humano pode terminar vítima da caça. Novos estudos evidenciam que a atividade, proibida no Brasil desde 1967, ameaça a saúde pública. Isto porque caçadores acabam funcionando como elo entre microrganismos da floresta e os centros urbanos: podem carregar patógenos de novas e velhas doenças, como leptospirose e a raiva, que permaneceriam longe das cidades, controlados pela floresta.
Uma pesquisa inédita e ainda em curso dos cientistas Paulo Sergio D’Andrea, Gisele Winck e Cecilia Andreazzi, do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), já identificou 160 patógenos — entre vírus, bactérias, vermes, parasitas e fungos — em mais de 60 espécies de mamíferos caçados no Brasil. O foco do trabalho é detectar as doenças que podem ser transmitidas pelo consumo e a manipulação da carne de caça de animais silvestres.
Há motivos de sobra para preocupação. O contato com a carne de um animal infectado por coronavírus de morcego, na China, é considerado a origem mais provável da pandemia de Covid-19. Este mês, a OMS inclusive criou um painel para a chamada Saúde Única (conceito de que sem equilíbrio na natureza não há saúde humana) e a caça é um dos principais temas.
Os cientistas da Fiocruz estimam que o número de patógenos seja muito maior do que o já identificado. Dos 160 listados, só dois reconhecidamente não são nocivos para os seres humanos, explica Gisele Winck. Entre os outros 158 estão os agentes causadores da febre maculosa, da leishmaniose, da leptospirose, de febres hemorrágicas e da raiva.
Esta última, considerada a mais letal das infecções por vírus, pois mata 99% de suas vítimas, foi o alvo de outro estudo, este com caçadores e javalis, animal exótico que veio da Europa e se tornou praga no Brasil. Desde 2013, a caça do javali, chamada de “controle”, é permitida. Mas até agora não teve significância na redução da sua população.
— Qualquer contato com secreção ou sangue de animal infectado é um risco para a raiva. Associe isso à falta de anticorpos por vacina nos caçadores e temos uma situação extremamente perigosa. A mistura de javalis com anticorpos para a raiva com caçadores sem vacina é uma bomba relógio — destaca o coordenador do estudo, Alexander Biondo, professor do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Diferentemente do javali, que ataca humanos, não existe um só animal na fauna brasileira capaz nos ameaçar, diz Biondo. Por isso, ele defende que “a caça é uma tradição cultural cujo lugar é no passado”.
— O caçador traz doenças para ele, a família e a sociedade. É um semeador de futuras pandemias — frisa Biondo.
Paulo Sérgio D’Andrea diz que mais de 90% dos patógenos conhecidos que afetam os animais silvestres não lhes causam problemas. O problema é que o caçador rompe essa relação natural. — E é aí que as doenças acontecem e podem ser agressivas — enfatiza D’Andrea, vice-chefe do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres do IOC/Fiocruz. — É preciso que a sociedade discuta a caça e tenha ciência dos riscos que ela traz.
Elba Lemos, chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do IOC/Fiocruz, lembra que “o perigo está perto”:
— As florestas dos maciços da Pedra Branca, dentro do município do Rio de Janeiro, têm morcegos com bactérias do genêro Bartonella e a Coxiella burnetti, a causadora da febre Q, uma doença letal. Temos um foco de peste bubônica em roedores numa área da Região Serrana, latente há 30 anos.
O caçador vira caça também por meios indiretos. Um deles é o contato com presas vivas e mesmo partículas em suspensão. A poeira da urina seca e das fezes de ratos pode transmitir febres hemorrágicas com 60% de letalidade; se for contaminada por excrementos de morcego, pode trazer a histoplasmose, doença pulmonar grave. Além disso, muitos animais caçados não estão doentes, mas estão infectados.
A matéria completa pode ser lida em O Globo
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