
22/06/2021
Com só 60 mil habitantes, o município goiano de Cristalina é um dos berços de um sistema que leva água e eletricidade aos lares de cerca de 60 milhões de brasileiros.
Encravado no cerrado, o município abriga 256 rios e riachos que desembocam no Paranaíba, um dos principais formadores do rio Paraná –cuja bacia abarca boa parte dos estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás e o Distrito Federal.
Hoje, porém, vários rios que integram a bacia vivem a menor vazão já registrada, gerando temores de um apagão no sistema elétrico brasileiro e levando pesquisadores a apontar para a relação entre o desmatamento no cerrado e a crise hídrica no centro-sul do Brasil.
Grande parte da vazão do Paraná se deve a rios que nascem em áreas de cerrado bastante desmatadas nas últimas décadas – caso de Cristalina e dos municípios vizinhos, no entorno de Brasília.
Do alto, a paisagem da região hoje lembra um caderno de geometria, com uma profusão de círculos e linhas retas criadas por máquinas agrícolas.
Segundo o MapBiomas, plataforma que monitora o uso do solo no Brasil, de 1985 a 2019, a área coberta pelo cerrado diminuiu 33% na microbacia hidrográfica daquela região, a Alto Paranaíba 3.
Em toda a bacia do Paraná, que também inclui trechos de mata atlântica, foram destruídos 4,2 milhões de hectares de vegetação nativa no mesmo período –uma perda de 17,6%. A área desmatada é 127 vezes maior que o município de Belo Horizonte.
Hoje, resta na bacia 22,4% da cobertura natural original.
Para pesquisadores entrevistados pela BBC News Brasil, o desmatamento agrava a escassez nos reservatórios do Paraná, responsáveis pela maior capacidade de geração de energia hidrelétrica do país.
"É uma resposta preguiçosa atribuir a variação nos reservatórios apenas ao El Niño ou à La Niña", diz o geógrafo Yuri Salmona, doutorando em Ciências Florestais pela Universidade de Brasília (UnB).
Salmona se refere a explicações para mudanças nas vazões de rios brasileiros que só levam em conta fatores climáticos. No caso da seca atual na bacia do Paraná, há forte influência da La Niña, resfriamento periódico nas águas do oceano Pacífico que tende a reduzir as chuvas no centro-sul do país.
Para Salmona, porém, esses grandes fenômenos "são só parte da reposta".
Nos últimos anos, vários especialistas têm associado o desmatamento na Amazônia à diminuição das chuvas em outras partes do Brasil. Segundo eles, a derrubada das árvores faz com que a floresta deixe de bombear para a atmosfera uma imensa quantidade de água que posteriormente se transformaria em chuva, os chamados "rios voadores".
Já Salmona e outros pesquisadores estudam o impacto que o desmatamento do próprio cerrado tem na oferta de água na região.
O geógrafo está finalizando uma pesquisa na qual compara a vazão de várias bacias hidrográficas do cerrado com os índices de chuva e de ocupação do solo nesses locais nas últimas décadas.
Ele afirma que, embora em algumas bacias as chuvas venham realmente diminuindo, a redução na vazão dos rios tem sido quase generalizada e ocorreu até em regiões do bioma onde as chuvas mantiveram os padrões históricos.
Leia a matéria completa na Folha de S. Paulo
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