
11/05/2021
A chegada ao porto de Anamã (161 km em linha reta de Manaus), no Amazonas, vem acompanhada de um susto: na praça e nas ruas alagadas, pessoas com água acima do joelho transitam sem pressa enquanto canoas e lanchas passam pelas vias submersas. Da farmácia à igreja, tudo está aberto como se a cidade não precisasse do chão firme para funcionar.
De fato, a Anamã já se adaptou com a vida anfíbia e até se orgulha dela: no arco de entrada diante do porto, está a inscrição “Veneza da Amazônia”, devido às alagações quase anuais .
A diferença é que neste ano o rio Solimões transbordou com um mês de antecedência e já cobre todas as ruas. A única vez que isso ocorreu foi em 2015, ano da maior enchente já registrada.
A pequena cidade de 14 mil habitantes é apenas um dos 53 municípios do Amazonas (de um total de 62) já impactados pelas chuvas acima da média nas cabeceiras dos principais rios amazônicos.
“Esta cidade está 100% n’água, não tem como dizer onde que tem terra”, diz o eletricista aposentado Estáquio Viana dos Santos, 77, em conversa na recém-instalada maromba, como são chamadas as tábuas de madeira amparadas nas paredes das casas que funcionam como um piso mais alto.
Para entrar ali, foi preciso subir em uma cadeira e passar pela janela –a porta já está submersa. A casa conta também com um segundo andar, construído para o caso de enchentes mais altas.
Além das marombas e do segundo piso, os moradores também recorrem à elevação das casas. A técnica é tão engenhosa quanto rudimentar: na fundação, são colocados de 15 a 20 macacos hidráulicos de automóveis. Pouco a pouco, a casa vai sendo escorada e subindo até a altura desejada, geralmente 3 metros. São então fixadas as palafitas.
Com o nível da água ainda relativamente baixo, por enquanto, a cidade não tem desabrigados. Em todo o estado, já são 12.650 desabrigados, segundo a Defesa Civil. Na quinta-feira dia 6, o governador Wilson Lima (PSC) anunciou o pagamento de R$ 300 para até 100 mil famílias.
Com as casas adaptadas, a principal preocupação dos moradores é outra: regulamentar o trânsito fluvial urbano durante o período inundado, que costuma durar até três meses.
“Quando a rabeta [canoa com motor] passa em alta velocidade, o banzeiro [ondas] derruba o liquidificador, estraga as portas”, diz a artesã Elcilene dos Santos, 42, ecoando uma reclamação generalizada.
A polêmica maior é com as casquetas, pequenas canoas pilotadas por jovens. Para envenenar o motor, eles colocam carburador de moto e trocam a hélice pela “palheta tailandesa”, uma febre recente na cidade.
“É como se fosse uma Ferrari”, compara o vereador Jane Menezes (PSC), 43. Nesta semana, a Câmara se reuniu para discutir o assunto. As propostas vão desde proibir o trânsito das casquetas dentro da cidade até estipular um limite de velocidade. O problema, diz ele, é encontrar uma jurisprudência.
A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo
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