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Criação de rodovia na Amazônia ameaça disparar a violência no lado peruano

27/04/2021

O sol caía sobre o rio Abujao, próximo à fronteira do Peru com o Brasil, quando o barco do líder indígena Jorge Pérez ficou sem combustível. Eram 17h de uma tarde de novembro e só lhe restava remar até o povoado mais próximo, para continuar no dia seguinte sua viagem até Pucallpa, capital da região amazônica de Ucayali, no Peru. Quando a ponta do seu barco tocou a costa, quatro pessoas, entre jovens e adultos, saíram do matagal.
"Quem é você? Nunca te vi antes", disse um dos mais jovens. "Eu vivo aqui. Acho que você está enganado. É a primeira vez que eu te vejo, isso sim", respondeu o líder indígena, com a firmeza de quem percorre o rio Abujao há mais de 20 anos.
Pérez narra que estava ciente do perigo quando percebeu que os quatro portavam armas de fogo de longo alcance. Ergueu o olhar e viu que no mato havia mais 20 pessoas. “Não sou o único habitante que passou por isso, mas, como todas essas pessoas são de fora, estão sempre averiguando se você é policial”, conta o líder indígena, que, por segurança, nos pede para proteger seu nome.
Nos últimos cinco anos, a presença de migrantes de Ayacucho e Apurímac se intensificou ao longo do rio Abujao, no distrito de Callería, e também houve um aumento da invasão das terras indígenas ashaninkas e shipibas.
Por que Jorge Pérez foi interceptado por esse grupo armado? Em um primeiro momento, ele não sabia ao certo com quem estava lidando, mas suas suspeitas se confirmaram no dia seguinte, quando, às 5h da madrugada, ouviu um barulho constante de teco-tecos na região. Embora a presença de cultivos ilícitos de folha de coca em Abujao remonte há aproximadamente 20 anos, os habitantes entrevistados por esta reportagem confirmam que, nos últimos cinco anos, a região se tornou "zona vermelha", como chamam o lugar onde operam grupos ligados ao tráfico de drogas, especificamente de pasta básica de cocaína.
Suas declarações foram confirmadas pelos relatórios da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (Devida), órgão do governo peruano.
A esta região da Amazônia peruana, porém, deve-se somar um risco a mais: a construção da rodovia Pucallpa-Cruzeiro do Sul, um projeto viário para conectar comercialmente o Peru e o Brasil. Uma interconexão que evoca o fantasma da rodovia interoceânica, uma das infraestruturas viárias mais caras do Peru e construída pela empresa brasileira Odebrecht, envolvida em uma investigação sobre o pagamento de propinas para funcionários do governo peruano. Como o objetivo de conectar os dois países, provocou a perda de ao menos 177 mil hectares de florestas nativas, segundo o relatório do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP, na sigla em inglês).
A proposta da rodovia Pucallpa-Cruzeiro do Sul já foi submetida a estudos, análises e críticas de cientistas, organizações indígenas e ambientais. A última rota desenhada para essa via percorre paralelamente a bacia do rio Abujao e atravessa ao menos dez comunidades shipibas e ashaninkas, como Bethel, Betania, Santa Rosita de Abujao e San Mateo, na fronteira com o Brasil.

A matéria completa pode ser lida na Folha de S. Paulo

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