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Água da Cedae, a água que gato não bebe

22/04/2021

Toró tem o hábito malsão de roubar a água do copo que fica em cima da minha escrivaninha. Eu deixo, porque gatos precisam beber muita água, e eu preciso me mexer mais. Ele bebe feliz porque acha que está fazendo algo proibido, e eu acabo tendo que me levantar da cadeira e ir até a cozinha para lavar o copo: não é bem uma maratona, mas já é alguma coisa.
Era assim que eu interpretava a nossa rotina até ontem, quando me servi da jarrinha que fica ao lado do copo. Ele estava ali perto, ouviu o barulho e veio correndo. Tinha acabado de me sentar para trabalhar e não estava com nenhuma vontade de me levantar de novo — mas, sendo o Toró, o que fazer?
Deixei chegar no copo. Ele meteu o focinho com vontade, cheirou a água e... foi embora, desapontado.
Detalhe: a entrega da água mineral atrasou, e pela primeira vez ao longo dos últimos meses eu estava bebendo água filtrada.
Vê se pode! Eu esse tempo todo achando que ele preferia a água do meu copo porque era proibida, e ele esse tempo todo se refugiando na minha água mineral para evitar a água da Cedae, a água que gato não bebe.
Ninguém precisa ter o olfato apurado dos felinos para perceber que a nossa água anda esquisita, mas a forma como o Toró se manifestou foi imbatível e incontestável. Fiscalização sanitária é com ele mesmo.
Contei a história na internet, e a Chica da Silva, minha filha adotiva do Piauí, saltou em defesa do irmão: “Mãe Cora: em primeiro lugar meu irmão não rouba. Em segundo lugar, se alguém rouba não será ele, o dono da casa. Em terceiro lugar, meu irmão não é besta para beber água ruim. A nenê por exemplo só bebe água mineral. Antes do Thyago morrer só bebia de uma marca específica, caríssima. Um dia eu vendia um amigo e no outro um inimigo pra comprar a tal água. Em quarto lugar meu irmão não faz nada proibido, nem imoral, nem que engorda. Basta olhar a silhueta dele. Em quinto lugar, cadê as provas, minha mãe? Cadê? Meopae é cada coisa que a gente tem que aguentar da humanidade.”
Choveram depoimentos de funcionários de gatos (e donos de cães), a maioria relatando casos semelhantes. Até o coelho da Roberta Ramos entrou na roda: não apenas exige água mineral, como sabe distinguir marcas e recusa imitações da sua favorita.
Quem resumiu bem foi o Marcio De Meo: “A gente pode chamar tudo de água, mas animal sabe diferenciar o que pode beber e o que representa risco.”
Os peixinhos, que não tiveram essa opção, se deram mal. Uma batelada de alevinos, os filhotinhos recém-nascidos dos guppies, morreu na última troca de água, e estou lutando desde então para estabilizar o aquário.
Agora avalio seriamente dar água mineral para a Famiglia Gatto, pelo menos até que um líquido digno do nome volte a fluir das nossas torneiras. Se for o caso, passo a beber eu da água ruim: afinal, como observou a Marcela Suarez, eu tenho plano de saúde, mas eles não.

Fonte: O Globo

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