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Hidrelétricas matam toneladas de peixes e ameaçam espécies nos rios brasileiros, aponta estudo

15/04/2021

O peixe está nadando tranquilamente em uma represa quando, de repente, é sugado pelo duto que leva até a turbina de uma usina hidrelétrica. Em questão de segundos, vai ser arremessado do outro lado da barragem. Seu organismo será seriamente afetado: e nem é pela queda.
Imerso na água, o peixe está em um ambiente de alta pressão - que para ele é natural. Quando ele é sugado e de repente jogado para o outro lado da represa, ele sofre uma descompressão instantânea.
"Isso acontece em menos de um segundo. Quando ele passa pelas pás [da turbina], sofre a descompressão: o ar de sua bexiga natatória se expande muito velozmente, muitas vezes dobrando, triplicando o tamanho. Essa bexiga se expande e empurra tudo o que está à volta, chegando a romper órgãos", explica o biólogo e ecólogo Andrey Leonardo Fagundes de Castro, professor na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
"Acontece muitas vezes do estômago sair para fora da boca, o intestino para fora do ânus, o olho pular para fora da cavidade ótica… Hemorragia em todas as partes do corpo. É uma questão muito séria", descreve ele.
Intrigados com uma série de relatos de mortandade desses animais em regiões de usinas hidrelétricas do país, Castro e um grupo de pesquisadores da UFSJ, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETHZ), na Suíça, e da Universidade de Southampton, na Grã-Bretanha, mapearam e reuniram todas as notificações de cardumes mortos nos últimos dez anos no Brasil em decorrência de operações de usinas hidrelétricas.
No total, compilaram um total de 128 mil quilos de peixes mortos, com ocorrências em praticamente todas as bacias hidrográficas do país. Mas, de acordo com os pesquisadores, esse número pode estar muito abaixo do que realmente ocorre — porque o número consolida apenas as mortes em massa que geraram algum tipo de registro e porque a amostragem compreende menos de 1% das usinas hidrelétricas do país.
Castro explica que, embora só a morte de grandes grupos de peixes simultaneamente acabe despertando a atenção e merecendo registro , é altamente provável que peixes estejam morrendo, um a um, de forma constante, pela operação das usinas. Por causa de peculiaridades dos organismos, muitos peixes não morrem instantaneamente quando passam pelas turbinas — mas ficam com suas estruturas corporais seriamente comprometidas.
"Um exemplo são os gases. Quando há uma descompressão, há a formação de bolhas no sangue, o que a gente chama de embolia. Isso vai ficar no sangue e causar problemas", enumera Castro. Ele também atenta que os danos nos órgãos podem não matar na hora, mas impedir que o bicho tenha uma vida normal — tornando-o mais vulnerável a predadores ou mesmo causando morte alguns dias mais tarde, em uma lenta agonia.
Para avaliar os efeitos desse tipo de variação de pressão no organismo dos peixes, os cientistas utilizam uma câmara, em laboratório, capaz de simular situações hiper e hipobáricas — inclusive prevendo variabilidade em curto espaço de tempo.
"Basicamente, o que fazemos é colocar o peixe, aumentar a pressão gradativamente, simulando a profundidade que ele estaria quando captado pelo duto de sucção que leva até a turbina. Ali ele fica aclimatado. Então diminuímos a pressão rapidamente, simulando a passagem pela turbina", explica Castro.
Em seguida, eles retiram o peixe da câmara e avaliam os efeitos. "Se ele não morrer, o anestesiamos, fazemos a eutanásia e imediatamente realizamos a autópsia. O propósito é analisar quais são os diferentes danos e lesões encontrados no peixe."

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