
19/01/2021
A pouca entrada de água do mar nas lagoas da Região Oceânica tem tornado mais evidentes os danos causados pela poluição. Nem uma obra da prefeitura para desobstruir o Túnel do Tibau, em Piratininga, e o trabalho de máquinas retirando areia do fundo do Canal de Itaipu, nos últimos quatro meses, foram suficientes para a retomada plena da ligação com o mar. A prefeitura diz que voltará a retirar pedras na passagem do Tibau, fechada após novo desabamento há uma semana; mas considera o desassoreamento no Canal de Itaipu finalizado.
As lagoas de Piratininga e Itaipu também estão com a ligação entre elas prejudicada. Há cerca de 20 dias, uma estrutura da margem do Canal do Camboatá, entre a Avenida Almirante Tamandaré e a antiga comporta, em Piratininga, veio abaixo. A prefeitura retirou sedimentos com máquinas, liberando parte da passagem. No entanto, o assoreamento reduziu quase à metade o fluxo de água no trecho.
Presidente do Conselho Comunitário da Região Oceânica (Ccron), Gonzalo Perez diz que, até agora, não houve efetividade nas ações para liberar a entrada de água do mar.
— O nível do Canal de Itaipu está praticamente o mesmo de antes do desassoreamento. Na Lagoa de Piratininga, não está entrando água. São passagens que precisam de obras estruturais. A consequência disso não é só a mortandade de peixes que vimos na última semana: muito lodo do fundo das lagoas está subindo. É possível ver manchas pretas em vários trechos das margens — alerta.
Essa não é a primeira vez que a ligação da Lagoa de Piratininga com o mar é prejudicada. Em abril passado, pedras desabaram no interior do Túnel do Tibau, o que levou a prefeitura a contratar a empresa Ecoblasting por R$ 1,09 milhão para liberar a passagem e identificar outros pontos de risco. A retirada das pedras terminou em dezembro, mas o desmoronamento da última semana bloqueou novamente o túnel. O pescador e ativista Paulo Oberlander esteve no local há quatro dias e comprovou que a entrada de água do mar voltou a ser interrompida:
— No último fim de semana, a Lagoa de Piratininga estava cheia de peixes. Depois desse dia, comecei a constatar uma grande mortandade na lagoa e resolvi ir até a entrada do túnel, pelo mar, para ver se algo tinha ocorrido. Chegando lá, me deparei com mais um desabamento, interrompendo o fluxo de água por completo. Com certeza, a falta de oxigenação na água foi o que ocasionou a morte dos peixes.
A prefeitura diz que a Ecoblasting voltará a retirar rochas do Túnel do Tibau até que a passagem seja plenamente liberada, sem necessidade de contrato adicional. A empresa identificou quatro pontos de instabilidade no túnel, com a possibilidade de novos deslocamentos de pedras e informa que, por segurança, pescadores e esportistas não devem ir ao local. A Ecoblasting entregará um estudo com proposta para estabilizar definitivamente a estrutura, e a prefeitura avaliará a viabilidade da obra, que terá outra licitação.
Apesar de considerar o desassoreamento no Canal de Itaipu finalizado, o município acrescenta que monitora o local e, caso constate nova obstrução, voltará a remover areia. Na conexão entre as lagoas, no Canal do Camboatá, afirma que máquinas liberaram o fluxo de água, há duas semanas, e a passagem não foi interrompida, “apenas dificultada, sem impossibilitar, a navegação de embarcações pesqueiras”. A empresa HydroScience foi contratada e deverá entregar até março um estudo com ações para recuperar as condições ambientais nas lagoas e no Canal do Camboatá. Ainda segundo o município, estão sendo desenvolvidas ações de recuperação ambiental das bacias hidrográficas e do sistema lagunar, como a revitalização da orla, a renaturalização do Rio Jacaré, a captação dos efluentes dos rios Arrozal e Cafubá e obras de saneamento nas comunidades da orla da Lagoa de Piratininga.
Uma consulta pública foi lançada para receber propostas de empresas interessadas em desenvolver experimentos com novas tecnologias para reduzir a camada de lodo na Lagoa de Piratininga. A prefeitura diz que a intenção é “elaborar o Termo de Referência para contratação das tecnologias mais eficientes”.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que compartilha a gestão das lagoas com a prefeitura, diz que elaborou um projeto para a recuperação ambiental do sistema lagunar, com dragagem e urbanização das margens. No momento, o órgão busca alternativas para viabilizar a execução das obras, que são orçadas em aproximadamente R$ 400 milhões.
Fonte: O Globo
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