
12/01/2021
Você já ouviu a voz da floresta? As plantas "falam", têm "sentimentos", memória e ajudam a sua comunidade. Algumas delas, como as árvores-mães, até alimentam outras plantas.
A reportagem especial de 41 anos do Globo Rural mostra toda essa sabedoria que vem da floresta.
Antes que o homem surgisse na Terra, os vegetais já usavam a eletricidade para se comunicar e se defender. A árvore não é imóvel, passiva, como sugere a expressão "estado vegetativo".
E um dos diversos exemplos disso é a planta Maria dormideira, que se fecha ao ser tocada em uma de suas folhas.
A repórter Mariana Fontes conta que, em sua infância em Minas Gerais, ficava encantada com essa planta e adorava brincar com ela. Alguém contou na época que a espécie gostava de receber um carinho e, então, dormia.
Mas a ciência já estuda essa reação faz tempo. E não tem nada a ver com preguiça não.
Ao sentir uma ameaça, é como se uma corrente elétrica viajasse pelo corpo dela, levando um ‘aviso de perigo’. A planta então reage. Só que, em vez de músculos para fugir, ela usa um sistema hidráulico e se move deslocando água.
No momento em que o sinal elétrico chega à base da folha da Maria dormideira, ela perde água e murcha, conta o biólogo Gabriel Daneluzzi, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, em Piracicaba, São Paulo.
Celebridade na botânica, a Maria dormideira também é chamada de "sensitiva" ou "Maria fecha a porta".
Um outro exemplo sobre a inteligência da planta pôde ser observado em um experimento de pesquisadores da Esalq-USP.
Se um vaso da dormideira cai no chão, todas as folhinhas praticamente se fecham com o impacto. Mas os pesquisadores decidiram "ensinar" à planta que essa queda não tem nada a ver com a presença de predadores.
Para isso, eles jogaram vários vasos no chão muitas vezes. Eles sempre assistiam as folhinhas se fecharem, até que em um momento elas pararam com isso.
Os pesquisadores aguardaram cerca de um mês e soltaram os mesmos vasos no chão. A planta continuou aberta e eles concluíram, portanto, que ela se "lembrava" dos experimentos, o que sugere que os vegetais podem dar respostas mais eficientes quando usam um tipo de memória.
As plantas aprendem através de processos bioquímicos que se repetem. Tudo que é presenciado fica registrado e, quando isso é repetido, isso é identificado.
“Elas [as plantas] aprendem através de processos bioquímicos que se repetem. Tudo que é presenciado fica registrado e, quando isso é repetido, isso é identificado”, diz o agrônomo Ricardo Oliveira.
“O que motiva os cientistas, pesquisadores, entusiastas desse mundo a estudar é procurar entender como a vida se manifesta numa planta, e quais são de fato suas capacidades”, acrescenta.
A sabedoria da natureza também permite que ela se regenere mesmo após o desmatamento.
Foi o que aconteceu em uma área da Mata Atlântica, localizada perto do Parque Nacional de Itatiaia (divisa de SP, MG e RJ), na Serra da Mantiqueira. Por lá, o vizinho de cerca do repórter Nelson Araújo, Eduardo Campos, contribuiu para a recuperação das plantas.
No meio da década de 1980, ele e mais seis amigos compraram a área, que havia sido desmatada e transformada em uma grande fazenda de gado e lavoura.
A recuperação se deu por estágios. Assim que tiraram o gado e pararam com as roças, uma espécie tomou conta das encostas: a vengala. Também chamada de calafá. Um tipo de um bambuzinho da Mata Atlântica.
Planta pioneira, ela se espalha formando uma estufa a céu aberto, onde a vida estocada no solo desabrocha.
A matéria na íntegra pode ser lida no G1
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