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Entenda como a cadeia da castanha estimula a economia e ajuda na conservação da Amazônia

07/01/2021

É por volta das 6h30 que o extrativista Natanael Gonçalves Vicente, de 46 anos, segue de motocicleta até a mata para coletar castanha todos os dias. O percurso de pelo menos dez quilômetros aos castanhais é feito dentro da reserva do rio Cajari, no Amapá, onde vivem mais de 300 famílias. Retorna apenas entre 16h e 17h junto de dois dos seus quatro filhos que dão suporte ao trabalho, de 18 e 22 anos.
Natanael cumpre a rotina de coleta desde a adolescência e a castanha é a principal fonte de renda da família do extrativista. "Comecei com meu pai muito cedo ainda a trabalhar. É uma tradição que veio do meu avô, que passou para o meu pai e agora veio para mim", disse.
"Quando chega a época da castanha, é a época em que os extrativistas conseguem um recurso financeiro com mais rapidez. A agricultura familiar que a gente trabalha é para subsistência", complementou o extrativista.
A importância da castanha para a Amazônia vai além. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o fruto ocupa o segundo lugar do ranking dos produtos não madeireiros mais extraídos na Região Norte, perdendo apenas para o açaí.
Em 2019, mais de 32 mil toneladas de castanha foram comercializadas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Dessa quantidade, 7 mil (21,8%) foram destinados ao mercado externo.
Assim como na família de Natanael, a coleta da castanha-da-amazônia é tradição no povo Paiter Suruí. Os indígenas, porém, estão entre os muitos do bioma brasileiro que são ameaçados por invasões de madeireiros e, consequentemente, com o avanço do desmatamento.
A terra indígena onde vivem os Paiter, a Sete de Setembro, fica ao norte de Cacoal (RO) e tem quase 1,4 mil indígenas, de acordo com o Instituto Socioambiental (ISA)."100% do povo Paiter trabalha com o extrativismo de castanha. O que mais precisamos é de um mercado certo para colocarmos o nosso produto. É importante porque gera uma renda para a própria família e é usada para o próprio consumo. As famílias saem de suas aldeias e vão para a floresta. Coletam, trazem, lavam, secam, colocam na sacola e levam para venda. Realmente existe uma cadeia", ressaltou Rubens Suruí, coordenador da Associação Metareilá do Povo Indígena Suruí.
Para Rubens, a atividade econômica gerada pela castanha-da-amazônia ajuda a frear tais invasões e, assim, protege e conserva a floresta. Com a presença dos indígenas nos castanhais na época de coleta, por exemplo, os invasores acabam se escondendo, o que inibe as atividades ilícitas na reserva.
"Ela (castanha) ajuda para que não aconteça esse desmatamento e essa ilegalidade dentro do território. Trabalhar com a castanha é como se fosse cuidar da floresta", declarou.
A agricultura itinerante, prática indígena que existe há milhares de anos na Amazônia, também auxilia na renovação do ambiente florestal por meio dos castanhais. O trabalho consiste em derrubar trechos das florestas e depois fazer a limpeza dos resíduos do corte. A ideia é preparar a área para cultivo e tornar o terreno até mais fértil.
"(Os indígenas) cortam uma vegetação de uma área, queimam, plantam ali por um ou dois ciclos, depois abandonam aquela área e vão fazer a roça em uma outro terreno. E aquela área volta a virar capoeira e floresta, que é o que chamamos de sucessão vegetal. E por 7, 8 anos já está praticamente uma floresta de novo", complementou Marcelino Guedes, especialista em Castanha do Brasil pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) do Amapá.

Para saber mais, acesse o G1

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